COMPRO, LOGO EXISTO!
por Mara Cristina Moro Daldin - Assistente Social - CRESS 0158

maradaldin.orgone@gmail.com


Vivendo com sérias limitações econômicas durante muitos anos, uma grande maioria de brasileiros foi cedendo à possibilidade de comprar novas coisas, achando então um gosto e um prazer fora do comum.

As facilidades que geralmente encontramos hoje em dia para compra e obter os mais diferentes produtos e serviços nada têm a ver com aquelas que normalmente podíamos ter anos atrás. A abundância de cartões de crédito, promoções e liquidações nos tornam cada vez mais reféns das compras.

Há de tudo à disposição de todos. Uma simples visita a um grande shopping que te apresenta centenas de novidades, além de uma grande diversidade de comidas, cinemas, estacionamentos, brindes, sorteios (quem não quer ganhar aquele carro colorido, brilhante e com um grande laço de fitas estacionado na entrada do shopping)? Não é ele mais um estímulo para comprarmos? Afinal, esta é a função do marketing... Mas devemos nos render diante disto tudo...?

É muito fácil entrarmos nas lojas e depois não resistirmos para comprar mais, mesmo que não seja necessário, mas, na hora em que ficamos diante daquele sapato, daquele vestido, alguém pensa ser ou não necessário?

Devemos também considerar e, de certa forma nos tranqüilizar, que a procura do conforto, da estética e da boa qualidade é um comportamento perfeitamente normal e, mais do que isso é louvável! Afinal, a sociedade mais e mais reforça que para sermos aceitos, devemos, DEVEMOS, estar com o corpo sarado, as formas perfeitas, conhecer os últimos lançamentos em DVD, CD, peças teatrais, os lugares in para ir às férias (tirar férias é uma obrigação, não para descansar, relaxar, refletir sobre a vida, mas para estar na moda, dizer que está integrado, por dentro do que está acontecendo!) então...

Compro, logo existo!... E estou aceito... Sou bacana, eu sou o cara! E eis que, pouco a pouco, nos tornamos mais dependentes do ato de comprar.

Alguns já não se sentem bem consigo mesmos se não puderem comprar, é como um vício que passa em instantes. Mas este sentir e agir traz uma preocupação e, apesar disso, muitas vezes incontrolável: que os gastos com as compras ultrapassam as reais possibilidades do comprador.

Hoje existem muitas pessoas para quem a chegada das faturas dos cartões ou de lojas é um autêntico foco de perplexidade, medo e angústia. Muitos escondem de seus companheiros ou amigos, alegando que o valor foi gasto com presentes para as festas de final de ano, aniversário ou, ainda, alegando que os juros é que estão aumentando o débito da fatura....

Mas, o pior disso tudo não são os gastos, as justificativas pelos gastos, mas as compras acabam por trazer de novo o vazio. O vazio que mostra que os objetos desejados e possuídos não conseguiram mais do que conceder-nos uma satisfação superficial, uns minutos de prazer e glória, de ter adquirido o que há de mais moderno, mais aceito e mais efêmero...

Talvez essa descoberta nos conduza a uma reflexão maior: que precisamos buscar ajuda e que esta ajuda nos leve a interesses mais profundos, os quais possam saciar as nossas necessidades maiores.

E que possamos passar do Compro, logo existo! para Penso, logo vivo!