Abusos sexuais, distúrbios alimentares, síndromes de stress
pós-traumático (SSPT), são situações onde o corpo é diretamente
atingido, transformado ou até mesmo anulado. Pesquisas clínicas
no campo das psicoterapias mostram como é insuficiente
permanecer exclusivamente no âmbito verbal, seja para
compreender os fenômenos que o terapeuta encontra diante de si,
seja para construir uma hipótese terapêutica eficaz.
Qualquer um que esteja tratando uma pessoa que tenha
sofrido abuso sexual deparar-se-á com fenômenos corporais
difíceis de classificar: o paciente poderá dizer que fazendo
movimentos com um braço, sente uma desagradável sensação, como
se uma outra pessoa fosse o dono daquele braço, ou dirá que
aquele braço é seu até o pulso e o resto não lhe pertence mais.
Um outro paciente poderá relatar incapacidade de elevar o tom de
sua voz em situações que o exigem, porém, no momento em que usar
um tom mais forte ou elevado ao falar, ou até mesmo ao emitir
gritos, poderá se assustar com sua própria voz, como se ela não
viesse de si, mas de um outro, dentro ou perto dele. Parece
então que o corpo não pertence ao sujeito / paciente quando se
move diferentemente do habitual e /ou quando eleva seu nível de
ativação fisiológica.
Do ponto de vista fenomenológico quase podemos afirmar
que aquele corpo contém mais de uma pessoa e até mesmo possui
certa qualidade relacional entre os mesmos, dada a sensação de
ameaça provada pelo paciente escutando uma voz que não lhe
parece ser a sua. É óbvio que o outro percebido dentro de
si tem relação com o episódio do abuso, portanto, é esperado que
o modo de aliviar este senso de alienante distinção é de
reconstruir um senso mínimo de identidade.
O que fica claro é o fato de que o corpo, a seu modo, é
portador de significado e está encarregado de configurar o
cenário em que se delineia a história traumática do sujeito: é
também verdade, porém, que aquilo que podemos chamar de
“convicções mentais” são diferentes das correspondentes
“convicções motoras”. No caso específico de um paciente que
sofreu abuso, as crenças mentais são adequadas porque ele mesmo
espanta-se com sua própria sensação corporal, sabe muito bem que
o braço é seu, no entanto, não sabe muito quanto a si mesmo. As
suas crenças corpóreas são, pelo contrário, “falsas” com uma
evidência inquestionável, mesmo se em um exame mais apurado,
revelem-se verdadeiras em um nível mais profundo, porque é
também verdade que não somos átomos isolados, mas somos
portadores de entrelaçados relacionais.
Ocorre então indagar o fenômeno, e a este propósito
tomaremos emprestado um experimento conduzido em uma área
diferente da clínica: Bower (1978) observou algo muito
importante para nós. Ele reapresenta um daqueles experimentos
típicos do trabalho de Piaget, onde ele molda um pedaço de
argila em forma de cilindro fino e o entrega a um menino de seis
anos. O menino toca, observa e o manuseia. Em seguida, Bower
pega o cilindro da criança e faz uma bola, passando-a para o
menino e lhe pergunta se esta tem o mesmo peso do cilindro. O
menino sem hesitar responde que a bola é mais pesada.
Até então Piaget já havia explorado a capacidade cognitiva
das crianças daquela idade, chegando a conclusão que elas são
ainda incapazes de compreender o princípio da conservação por
este tipo de transformação. No entanto, Bower vai além,
refazendo o experimento e desta vez o filma e descobre que o
menino está em conflito consigo mesmo. No momento em que está
para pegar na mão o sólido de argila vê-se claramente que o seu
braço levanta-se sem diferença tanto com a bola quanto com o
cilindro. Na verdade nós sabemos que o nosso braço levanta-se
alguns centímetros a mais quando se prepara para pegar um objeto
mais pesado do que o objeto recebido anteriormente. Ao invés
disso, o braço do menino não se move e o seu corpo está
exatamente na mesma posição anterior, como se acreditasse em
pegar alguma coisa com o mesmo peso da primeira.
A “crença” corpórea aqui prevalece sobre a “crença”
mental: elas medem o mundo de maneira diversa e oposta, e se
para um menino de seis anos isto não implica grandes problemas,
no caso de um adulto a situação pode ser muito perigosa.
NÃO SEI
POR QUE, MAS É ASSIM
Conhecem este fato muito bem os terapeutas que trabalham
com pessoas traumatizadas; hoje se sabe que muitas delas contam
histórias que não têm muito a ver com o que aconteceu de
verdade: freqüentemente acreditam que tinham sido abusadas ou
molestadas sexualmente na infância, porém, na verdade, estavam
traumatizadas por intervenções cirúrgicas em idade muito precoce
e sem um quadro afetivo adequado de suporte, ou vice-versa.
Como nos lembra Peter Levine: “As pessoas traumatizadas são
“imediatistas” nas suas tentativas frustradas de defenderem-se
eficazmente defronte a uma ameaça ou ferimento. É porque estão
subjugadas à execução de suas respostas, normalmente completas,
que foram interrompidas. O trauma é fundamentalmente uma
resposta biológica incompleta que não vem à memória de forma
explícita e consciente. Esta resposta vem codificada como
processo implícito fundamentado pelas reações biológicas de
sobrevivência. Este processo não terminado procura finalização e
integração, mas não consegue ser recordado explicitamente.
Existe, portanto, um valor positivo em colocar em ação as
energias encapsuladas no trauma. O psicanalista George Klein
introduziu o conceito de “transformação em
ativo”
como estratégia do self para
padronizar a experiência, repetindo-a com o objetivo de criar
novas e sempre mais evoluídas integrações psíquicas diante das
ameaças desagregantes que a evolução e o desenvolvimento pessoal
trazem consigo.
A importância funcional destas repetições, diz Klein, está
no fato de produzir uma forma de controle ou integração,
fornecendo ao self condições de fazer acontecer a
experiência. O objetivo principal é controlar a experiência. A
sua estranheza ou falta de ligação com o
self
vem de reduções de uma
experimentação controlada self.
Klein coloca lado a lado o tradicional princípio da
remoção, de onde extrai todo sentido das considerações
freudianas sobre agir e o princípio da transformação em ativo
o qual “segue o caminho do
confronto e da atualização das tendências desconhecidas,
conduzindo a uma integração que é uma ampliação diferenciada do
self”.
Aplicando as reflexões de Klein, podemos dizer que o
conceito de transformação em ativo dá bem a idéia de como
funciona aquele trabalho reparador que desde criança fazemos
quando sofremos uma frustração ou estamos à mercê de eventos
impactantes demais para nós: a transformação em ativo leva em
consideração experiências vividas passivamente como imposições,
que levam as tentativas de re-experimentar manterem-se em
sintonia com o self. A experiência, apesar de dolorosa, é
gerada pelo self, é levada a fazer parte da experiência.
A transformação em ação
reverte a experiência do “eu sou
controlado” por “eu controlo”, a sensação de estranheza se
transforma em sensação de familiaridade.
Vemos aqui claramente a idéia fundamental de continuidade do
self ligada a continuidade do padrão da experiência e que
assim dá lugar a reação humana natural de re-experimentar em
ativamente aquilo que foi experienciado dolorosa e passivamente.
Entretanto, será crucial que a experiência de reparação e
/ou também de evolução fisiológica seja caracterizada por
afabilidade para que prazer, ação, repetição e criatividade se
encontrem significativamente.
Levine sugere que não é muito importante se o evento
traumatizante não for recordado explicitamente. Aquilo que
importa, na cura do trauma, é levar a finalizar a resposta
incompleta à ameaça e conseqüentemente a descarga da energia que
esteve retida para a sobrevivência à ameaça. Somente quando a
memória implícita (processual) vem ativada e reencontrada
somaticamente é que se pode construir uma descrição explícita,
não o contrário. Deste modo o paciente poderá começar a
recordar, ou seja, a reconectar os aspectos dissociados da
experiência do corpo /self e libertar a energia congelada
no núcleo do trauma.
E aqui que se percebe a possibilidade e a importância da
ação como fator terapêutico.
O
completar da ação é o fator psico-fisiológico fundamental, mas
somente se vier sucedido de uma particular relação self /
outro, uma relação que põe os dois termos sobre bases iguais de
realidade e que reduz ao mínimo o desnível do papel de cada um.
Como afirma Martha Starck, um número cada vez maior de
psicanalistas contemporâneos pensa que aquilo que cura não é nem
o insight, nem uma experiência corretiva. Pelo contrário,
aquilo que cura é a relação com um outro real. O que cura é a
relação terapêutica em si mesma, uma relação que não envolva um
sujeito e um objeto do impulso, nem um sujeito e um objeto-self,
ainda nem um sujeito e um objeto bom, nem um sujeito e uma boa
mãe, mas um sujeito e um outro sujeito, ambos portadores de sua
própria autenticidade e ambos tendo a função de influenciar e de
serem influenciados pelo outro.
A relação sujeito-sujeito torna-se crucial nestes casos e
coloca, mais do que nunca em evidência os temas de respeito,
limites, mútua participação, sintonia e refinada atenção à troca
comunicativa que acontece a nível corporal.
NÃO SE
APROXIME, MAS TAMBÉM NÃO SE AFASTE
Os perigos de uma relação terapêutica assimétrica ou
desigual são maiores quando se trabalha com abuso e trauma
mesmo porque invasão e privação são próprias das condições que
se verificam nesses casos.
Nos pacientes que sofreram abusos sexuais, sobretudo em tenra
idade, pode-se perceber uma dupla reação ou um padrão de
comportamento. De um lado a pessoa mostra uma reação de extrema
sensibilidade ao contato, com componentes fóbicos e
contrafóbicos e por outro lado, revela uma forma de perceber-se
como profundamente cindida ou até mesmo existencialmente
mutilada.
As pessoas abusadas relatam que na verdade não possuem a
capacidade de regularem a distância pessoal e o contato
corporal, alguns estão enrijecidos na tentativa de se refugiarem
de qualquer envolvimento e adotam as mais variadas estratégias
de evitamento, de intimidade afetivo-corporal e podem chegar até
à total impossibilidade real de terem relações sexuais ou de
conseguir levar adiante uma gravidez, ainda que se verifique no
âmbito de uma relação amorosa satisfatória.
Outras vezes, pelo contrário, mostram-se excessivamente
disponíveis, tornando-se mais acessíveis ao desejo do outro, e
perdendo a capacidade de discriminar e escolher, dada as suas
impossibilidades de dizer não e de colocar limites razoáveis à
intimidade, inclusive sexuais. É preciso esclarecer que a sua
capacidade de criar limites protetores não é só uma questão de
autorização da expressão, mas uma verdadeira e própria confusão
perceptiva entre prazer e dor entre self (eu) e não-self
(não eu).
Passa-se então de um recuo aterrorizante a um dar-se
excessivo e descuidado. Em ambos os casos, a pessoa pode estar
falando de maneira gesticulada, mostrar-se fora de contato e em
conexão com uma situação que corresponde a experiência típica da
invasão. Ambas as tipologias referem-se ao fato de ela sentir o
perigo da invasão e de provar tais sensações repetidamente, mas
de não saber como fazer para enfrentar tal situação que é mais
forte do que ela.
É evidente que esta dificuldade de criar limites pessoais
adequados aparece também na terapia e põe a prova o terapeuta,
no sentido de que o obriga a um trabalho contínuo de
monitoramento da distância e de uma constante atenção aos
feedbacks do paciente após cada intervenção pelo próprio
terapeuta.
O
contato corporal em terapia vai, portanto, tocar o âmago do
problema, e ainda pelas próprias condições em que acontece
remeter automaticamente o paciente ao passado infantil
traumático. O terapeuta passa a ser, na verdade, uma pessoa
altamente significativa, uma figura de acolhimento, que ao mesmo
tempo está na posição de poder e intimidade com o mesmo. Estas
são todas as condições que normalmente caracterizam a situação
em que houve abuso infantil, dado que na maior parte dos casos o
abusador é uma pessoa da família ou próxima da família. É
provável, portanto, que na relação terapêutica se verifique uma
situação transferencial que faz ressurgir as antigas
experiências.
SINTO-ME
COMO UM CARRO QUEBRADO
O outro lado da questão, o risco de privação, está
igualmente presente em certos tipos de pessoas porque é normal
neles a vivência de profunda impossibilidade de mudança, porque
se sentem desgastados, fragmentados das partes essenciais e
irreversivelmente marcados pela sua inferioridade em relação aos
outros.
“Sinto-me como um carro quebrado” repetia frequentemente
uma paciente, “uma máquina que não se pode ajustar porque faltam
as peças certas e que mesmo se pudesse consertar, todos
perceberiam que não está normal. Tem algo que não poderei mais
ter”.
Esta percepção de irremediabilidade tão profunda e tão
comum nestes casos é obviamente o resíduo da experiência da
invasão. Esta terrível sensação não é imediatamente acessível ao
paciente de maneira tão clara e lúcida, mas só depois de certo
tempo de trabalho terapêutico se pode verificar esta
fragmentação. A pessoa abusada percebe-se em dúvida com sua
própria identidade corporal, como se o seu corpo fosse, na
realidade, lugar de passagem ou de permanência do outro, como se
os seus membros fossem movidos por outra pessoa ou como se o
contato gerasse sensações que ao invés de fazê-la sentir mais
intensamente a si mesma, a distanciasse.
É uma terrível sensação de perda si, causada pela
opressão sofrida e pela extrema invasão. Tudo isto fica claro
quando se pensa em tudo o que pessoa sofreu, mas o mais
relevante é que esta experiência está disponível na vivência
corporal mesmo quando a pessoa está bem distante de perceber e
afirmar isto, e se mostra, pelo contrário, uma pessoa bastante
equilibrada e em condição de reconhecer-se nas próprias ações e
na própria direção de vida. No corpo, entretanto, estão assim
inscritos vazio e privação.
É freqüente, a este propósito, que muitos terapeutas, no
decorrer de suas supervisões, relatem com surpresa que alguns
pacientes retornando à terapia na semana seguinte a uma
excelente sessão durante a qual tinham feito um bom trabalho
corporal, e demonstrado evidentes sinais de momentânea
transformação, se mostrem aterrorizados ou muito fechados em si
mesmos e até mesmo hostis com o terapeuta. O que para o
terapeuta fora uma boa sessão, para o paciente revelou-se uma
experiência de medo, isto é, tinha experienciado uma sensação
semelhante ao antigo abuso, onde todos os elementos, com o corpo
como elemento central, estavam presentes novamente. Não está
predominando para eles a sensação de alívio ao final da sessão,
mas a sensação que alguém me fez algo forte e significativo no
núcleo da minha existência, no meu corpo.
O terapeuta deve então repensar a forma de sua
intervenção, porque o paciente lhe deu um sinal claro, de que
agora em diante se encontrará perante a um duplo paradoxo
polaridade de privação e de invasão, que se traduzirá na típica
ambivalência do “quero e não quero” e que forçará o terapeuta a
não poder aproximar-se muito, mas também a não ficar muito
distante.
Invasão e privação podem ser dois perigos muito importantes
nestes casos, especialmente porque podem derivar de diversos
canais de contato: visão, som, movimento, respiração,
racionalização, emoção, ressonância e cada um destes podem vir a
ser um risco.
Dado que a corporeidade é um dos terrenos mais
significativos, parece útil frisar o fato que através dos canais
sensoriais da visão e da audição se desperdiça uma parte do bom
êxito do encontro. Sabemos o quanto as pessoas abusadas e
traumatizadas são sensíveis a variações súbitas e não claramente
compreensíveis das expressões do rosto do outro, do olhar, dos
tons de voz e dos sons externos. Torna assim muito fácil
resultar invasivas mesmo sem exprimir conteúdos verbais
particulares, mas simplesmente com a própria gestualidade
pessoal, obviamente inserida em um contexto clínico relacional.
Ocorre então que o terapeuta preste particular atenção
a própria forma de atender/olhar e de falar com o paciente. Por
meio da visão a invasão pode acontecer quando o terapeuta
continua a fixar o paciente de maneira defensiva ou agressiva
sem dar espaço para as suas introjeções e reflexões e até mesmo
mantendo-o longe ao fixá-lo por muito tempo como, às vezes, um
pai controla um menino. A privação pode, pelo
contrário, acontecer quando o terapeuta evita, ignora ou fixa
além do paciente, não aceitando a presença de seus olhos.
Através do
som a invasão aparece quando qualquer um extrapola, usando a voz
de maneira muito afirmativa. A privação, por outro lado, está
ligada a silêncios muito prolongados e inesperados, ou que criam
uma atmosfera imprevisivelmente diversa da habitual; estes
silêncios podem arrancar o paciente de sua sensação de
familiaridade e lançá-lo naquela condição que Freud definia como
unheimlich, ou seja,
sinistro, estranho, perigoso e misterioso e que sabemos ser o
terreno perceptivo profundo destas pessoas.