TRAUMA E ABUSO - CORPORALIDADE E AÇÃO
por Maurizio Stupiggia (*)  


ESTE CORPO NÃO É MEU

 

            Abusos sexuais, distúrbios alimentares, síndromes de stress pós-traumático (SSPT), são situações onde o corpo é diretamente atingido, transformado ou até mesmo anulado. Pesquisas clínicas no campo das psicoterapias mostram como é insuficiente permanecer exclusivamente no âmbito verbal, seja para compreender os fenômenos que o terapeuta encontra diante de si, seja para construir uma hipótese terapêutica eficaz.

            Qualquer um que esteja tratando uma pessoa que tenha sofrido abuso sexual deparar-se-á com fenômenos corporais difíceis de classificar: o paciente poderá dizer que fazendo movimentos com um braço, sente uma desagradável sensação, como se uma outra pessoa fosse o dono daquele braço, ou dirá que aquele braço é seu até o pulso e o resto não lhe pertence mais. Um outro paciente poderá relatar incapacidade de elevar o tom de sua voz em situações que o exigem, porém, no momento em que usar um tom mais forte ou elevado ao falar, ou até mesmo ao emitir gritos, poderá se assustar com sua própria voz, como se ela não viesse de si, mas de um outro, dentro ou perto dele. Parece então que o corpo não pertence ao sujeito / paciente quando se move diferentemente do habitual e /ou quando eleva seu nível de ativação fisiológica.

            Do ponto de vista fenomenológico quase podemos afirmar que aquele corpo contém mais de uma pessoa e até mesmo possui certa qualidade relacional entre os mesmos, dada a sensação de ameaça provada pelo paciente escutando uma voz que não lhe parece ser a sua. É óbvio que o outro percebido dentro de si tem relação com o episódio do abuso, portanto, é esperado que o modo de aliviar este senso de alienante distinção é de reconstruir um senso mínimo de identidade.

            O que fica claro é o fato de que o corpo, a seu modo, é portador de significado e está encarregado de configurar o cenário em que se delineia a história traumática do sujeito: é também verdade, porém, que aquilo que podemos chamar de “convicções mentais” são diferentes das correspondentes “convicções motoras”. No caso específico de um paciente que sofreu abuso, as crenças mentais são adequadas porque ele mesmo espanta-se com sua própria sensação corporal, sabe muito bem que o braço é seu, no entanto, não sabe muito quanto a si mesmo. As suas crenças corpóreas são, pelo contrário, “falsas” com uma evidência inquestionável, mesmo se em um exame mais apurado, revelem-se verdadeiras em um nível mais profundo, porque é também verdade que não somos átomos isolados, mas somos portadores de entrelaçados relacionais.

            Ocorre então indagar o fenômeno, e a este propósito tomaremos emprestado um experimento conduzido em uma área diferente da clínica: Bower (1978) observou algo muito importante para nós. Ele reapresenta um daqueles experimentos típicos do trabalho de Piaget, onde ele molda um pedaço de argila em forma de cilindro fino e o entrega a um menino de seis anos. O menino toca, observa e o manuseia. Em seguida, Bower pega o cilindro da criança e faz uma bola, passando-a para o menino e lhe pergunta se esta tem o mesmo peso do cilindro. O menino sem hesitar responde que a bola é mais pesada.

            Até então Piaget já havia explorado a capacidade cognitiva das crianças daquela idade, chegando a conclusão que elas são ainda incapazes de compreender o princípio da conservação por este tipo de transformação. No entanto, Bower vai além, refazendo o experimento e desta vez o filma e descobre que o menino está em conflito consigo mesmo. No momento em que está para pegar na mão o sólido de argila vê-se claramente que o seu braço levanta-se sem diferença tanto com a bola quanto com o cilindro. Na verdade nós sabemos que o nosso braço levanta-se alguns centímetros a mais quando se prepara para pegar um objeto mais pesado do que o objeto recebido anteriormente. Ao invés disso, o braço do menino não se move e o seu corpo está exatamente na mesma posição anterior, como se acreditasse em pegar alguma coisa com o mesmo peso da primeira.

            A “crença” corpórea aqui prevalece sobre a “crença” mental: elas medem o mundo de maneira diversa e oposta, e se para um menino de seis anos isto não implica grandes problemas, no caso de um adulto a situação pode ser muito perigosa.

 

NÃO SEI POR QUE, MAS É ASSIM

 

            Conhecem este fato muito bem os terapeutas que trabalham com pessoas traumatizadas; hoje se sabe que muitas delas contam histórias que não têm muito a ver com o que aconteceu de verdade: freqüentemente acreditam que tinham sido abusadas ou molestadas sexualmente na infância, porém, na verdade, estavam traumatizadas por intervenções cirúrgicas em idade muito precoce e sem um quadro afetivo adequado de suporte, ou vice-versa.

           Como nos lembra Peter Levine: “As pessoas traumatizadas são “imediatistas” nas suas tentativas frustradas de defenderem-se eficazmente defronte a uma ameaça ou ferimento. É porque estão subjugadas à execução de suas respostas, normalmente completas, que foram interrompidas. O trauma é fundamentalmente uma resposta biológica incompleta que não vem à memória de forma explícita e consciente.  Esta resposta vem codificada como processo implícito fundamentado pelas reações biológicas de sobrevivência. Este processo não terminado procura finalização e integração, mas não consegue ser recordado explicitamente.

          Existe, portanto, um valor positivo em colocar em ação as energias encapsuladas no trauma. O psicanalista George Klein introduziu o conceito de “transformação em ativo” como estratégia do self para padronizar a experiência, repetindo-a com o objetivo de criar novas e sempre mais evoluídas integrações psíquicas diante das ameaças desagregantes que a evolução e o desenvolvimento pessoal trazem consigo.

            A importância funcional destas repetições, diz Klein, está no fato de produzir uma forma de controle ou integração, fornecendo ao self condições de fazer acontecer a experiência.  O objetivo principal é controlar a experiência. A sua estranheza ou falta de ligação com o self vem de reduções de uma experimentação controlada self.

            Klein coloca lado a lado o tradicional princípio da remoção, de onde extrai todo sentido das considerações freudianas sobre agir e o princípio da transformação em ativo o qual “segue o caminho do confronto e da atualização das tendências desconhecidas, conduzindo a uma integração que é uma ampliação diferenciada do self”.

            Aplicando as reflexões de Klein, podemos dizer que o conceito de transformação em ativo dá bem a idéia de como funciona aquele trabalho reparador que desde criança fazemos quando sofremos uma frustração ou estamos à mercê de eventos impactantes demais para nós: a transformação em ativo leva em consideração experiências vividas passivamente como imposições, que levam as tentativas de re-experimentar manterem-se em sintonia com o self. A experiência, apesar de dolorosa, é gerada pelo self, é levada a fazer parte da experiência. A transformação em ação reverte a experiência do “eu sou controlado” por “eu controlo”, a sensação de estranheza se transforma em sensação de familiaridade.

          Vemos aqui claramente a idéia fundamental de continuidade do self ligada a continuidade do padrão da experiência e que assim dá lugar a reação humana natural de re-experimentar em ativamente aquilo que foi experienciado dolorosa e passivamente.

          Entretanto, será crucial que a experiência de reparação e /ou também de evolução fisiológica seja caracterizada por afabilidade para que prazer, ação, repetição e criatividade se encontrem significativamente.

          Levine sugere que não é muito importante se o evento traumatizante não for recordado explicitamente. Aquilo que importa, na cura do trauma, é levar a finalizar a resposta incompleta à ameaça e conseqüentemente a descarga da energia que esteve retida para a sobrevivência à ameaça. Somente quando a memória implícita (processual) vem ativada e reencontrada somaticamente é que se pode construir uma descrição explícita, não o contrário. Deste modo o paciente poderá começar a recordar, ou seja, a reconectar os aspectos dissociados da experiência do corpo /self e libertar a energia congelada no núcleo do trauma.

            E aqui que se percebe a possibilidade e a importância da ação como fator terapêutico.

O completar da ação é o fator psico-fisiológico fundamental, mas somente se vier sucedido de uma particular relação self / outro, uma relação que põe os dois termos sobre bases iguais de realidade e que reduz ao mínimo o desnível do papel de cada um.

            Como afirma Martha Starck, um número cada vez maior de psicanalistas contemporâneos pensa que aquilo que cura não é nem o insight, nem uma experiência corretiva. Pelo contrário, aquilo que cura é a relação com um outro real. O que cura é a relação terapêutica em si mesma, uma relação que não envolva um sujeito e um objeto do impulso, nem um sujeito e um objeto-self, ainda nem um sujeito e um objeto bom, nem um sujeito e uma boa mãe, mas um sujeito e um outro sujeito, ambos portadores de sua própria autenticidade e ambos tendo a função de influenciar e de serem influenciados pelo outro.

            A relação sujeito-sujeito torna-se crucial nestes casos e coloca, mais do que nunca em evidência os temas de respeito, limites, mútua participação, sintonia e refinada atenção à troca comunicativa que acontece a nível corporal.

 

NÃO SE APROXIME, MAS TAMBÉM NÃO SE AFASTE

 

              Os perigos de uma relação terapêutica assimétrica ou desigual  são maiores quando se trabalha com abuso e trauma mesmo porque invasão e privação são próprias das condições que se verificam nesses casos.

          Nos pacientes que sofreram abusos sexuais, sobretudo em tenra idade, pode-se perceber uma dupla reação ou um padrão de comportamento. De um lado a pessoa mostra uma reação de extrema sensibilidade ao contato, com componentes fóbicos e contrafóbicos e por outro lado, revela uma forma de perceber-se como profundamente cindida ou até mesmo existencialmente mutilada.

            As pessoas abusadas relatam que na verdade não possuem a capacidade de regularem a distância pessoal e o contato corporal, alguns estão enrijecidos na tentativa de se refugiarem de qualquer envolvimento e adotam as mais variadas estratégias de evitamento, de intimidade afetivo-corporal e podem chegar até à total impossibilidade real de terem relações sexuais ou de conseguir levar adiante uma gravidez, ainda que se verifique no âmbito de uma relação amorosa satisfatória.

            Outras vezes, pelo contrário, mostram-se excessivamente disponíveis, tornando-se mais acessíveis ao desejo do outro, e perdendo a capacidade de discriminar e escolher, dada as suas impossibilidades de dizer não e de colocar limites razoáveis à intimidade, inclusive sexuais. É preciso esclarecer que a sua capacidade de criar limites protetores não é só uma questão de autorização da expressão, mas uma verdadeira  e própria confusão perceptiva entre prazer e dor entre self (eu) e não-self (não eu).

            Passa-se então de um recuo aterrorizante a um dar-se excessivo e descuidado. Em ambos os casos, a pessoa pode estar falando de maneira gesticulada, mostrar-se fora de contato e em conexão com uma situação que corresponde a experiência típica da invasão. Ambas as tipologias referem-se ao fato de ela sentir o perigo da invasão e de provar tais sensações repetidamente, mas de não saber como fazer para enfrentar tal situação que é mais forte do que ela.

          É evidente que esta dificuldade de criar limites pessoais adequados aparece também na terapia e põe a prova o terapeuta, no sentido de que o obriga a um trabalho contínuo de monitoramento da distância e de uma constante atenção aos feedbacks do paciente após cada intervenção pelo próprio terapeuta.

         O contato corporal em terapia vai, portanto, tocar o âmago do problema, e ainda pelas próprias condições em que acontece remeter automaticamente o paciente ao passado infantil traumático. O terapeuta passa a ser, na verdade, uma pessoa altamente significativa, uma figura de acolhimento, que ao mesmo tempo está na posição de poder e intimidade com o mesmo. Estas são todas as condições que normalmente caracterizam a situação em que houve abuso infantil, dado que na maior parte dos casos o abusador é uma pessoa da família ou próxima da família. É provável, portanto, que na relação terapêutica se verifique uma situação transferencial que faz ressurgir as antigas experiências.

 

  SINTO-ME COMO UM CARRO QUEBRADO

 

            O outro lado da questão, o risco de privação, está igualmente presente em certos tipos de pessoas porque é normal neles a vivência de profunda impossibilidade de mudança, porque se sentem desgastados, fragmentados das partes essenciais e irreversivelmente marcados pela sua inferioridade em relação aos outros.

            “Sinto-me como um carro quebrado” repetia frequentemente uma paciente, “uma máquina que não se pode ajustar porque faltam as peças certas e que mesmo se pudesse consertar, todos perceberiam que não está normal. Tem algo que não poderei mais ter”.

            Esta percepção de irremediabilidade tão profunda e tão comum nestes casos é obviamente o resíduo da experiência da invasão. Esta terrível sensação não é imediatamente acessível ao paciente de maneira tão clara e lúcida, mas só depois de certo tempo de trabalho terapêutico se pode verificar esta fragmentação. A pessoa abusada percebe-se em dúvida com sua própria identidade corporal, como se o seu corpo fosse, na realidade, lugar de passagem ou de permanência do outro, como se os seus membros fossem movidos por outra pessoa ou como se o contato gerasse sensações que ao invés de fazê-la sentir mais intensamente a si mesma, a distanciasse.

            É uma terrível sensação de perda si, causada pela opressão sofrida e pela extrema  invasão. Tudo isto fica claro quando se pensa em tudo o que pessoa sofreu, mas o mais relevante é que esta experiência está disponível na vivência corporal mesmo quando a pessoa está bem distante de perceber e afirmar isto, e se mostra, pelo contrário, uma pessoa bastante equilibrada e em condição de reconhecer-se nas próprias ações e na própria direção de vida. No corpo, entretanto, estão assim inscritos vazio e privação.

            É freqüente, a este propósito, que muitos terapeutas, no decorrer de suas supervisões, relatem com surpresa que alguns pacientes retornando à terapia na semana seguinte a uma excelente sessão  durante a qual tinham feito um bom trabalho corporal, e demonstrado evidentes sinais de momentânea transformação, se mostrem aterrorizados ou muito fechados em si mesmos e até mesmo hostis com o terapeuta. O que para o terapeuta fora uma boa sessão, para o paciente revelou-se uma experiência de medo, isto é, tinha experienciado uma sensação semelhante ao antigo abuso, onde todos os elementos, com o corpo como elemento central, estavam presentes novamente. Não está predominando para eles a sensação de alívio ao final da sessão, mas a sensação que alguém me fez algo forte e significativo no núcleo da minha existência, no meu corpo.

            O terapeuta deve então repensar a forma de sua intervenção, porque o paciente lhe deu um sinal claro, de que agora em diante se encontrará perante a um duplo paradoxo polaridade de privação e de invasão, que se traduzirá na típica ambivalência do “quero e não quero” e que forçará o terapeuta a não poder aproximar-se muito, mas também a não ficar muito distante.

            Invasão e privação podem ser dois perigos muito importantes nestes casos, especialmente porque podem derivar de diversos canais de contato: visão, som, movimento, respiração, racionalização, emoção, ressonância e cada um destes podem vir a ser um risco.

            Dado que a corporeidade é um dos terrenos mais significativos, parece útil frisar o fato que através dos canais sensoriais da visão e da audição se desperdiça uma parte do bom êxito do encontro. Sabemos o quanto as pessoas abusadas e traumatizadas são sensíveis a variações súbitas e não claramente compreensíveis das expressões do rosto do outro, do olhar, dos tons de voz e dos sons externos. Torna assim muito fácil resultar invasivas mesmo sem exprimir conteúdos verbais particulares, mas simplesmente com a própria gestualidade pessoal, obviamente inserida em um contexto clínico relacional.

            Ocorre então que o terapeuta preste particular atenção a própria forma de atender/olhar e de falar com o paciente. Por meio da visão a invasão pode acontecer quando o terapeuta continua a fixar o paciente de maneira defensiva ou agressiva sem dar espaço para as suas introjeções e reflexões e até mesmo mantendo-o longe ao fixá-lo por muito tempo como, às vezes, um pai controla um menino. A privação pode, pelo contrário, acontecer quando o terapeuta evita, ignora ou fixa além do paciente, não aceitando a presença de seus olhos.

Através do som a invasão aparece quando qualquer um extrapola, usando a voz de maneira muito afirmativa. A privação, por outro lado, está ligada a silêncios muito prolongados e inesperados, ou que criam uma atmosfera imprevisivelmente diversa da habitual; estes silêncios podem arrancar o paciente de sua sensação de familiaridade e lançá-lo naquela condição que Freud definia como unheimlich, ou seja, sinistro, estranho, perigoso e misterioso e que sabemos ser o terreno perceptivo profundo destas pessoas. 


 

Bibliografia

 

1. KLEIN, George. S. Teoria Psicoanalítica, Milano, 1993.

2. LEVINE, Peter. Traumi e Shock Emotive, Macro Edizioni, Forlì, 2002.

3. STARCK, Martha. Modes of Therapeutic Action, Jason Aronson Inc., New Jersey, 1999.

 

Tradução do original em italiano: Psic. Gyovana Morilha

Revisão técnica: Psic. Heloísa Helena Daldin Pereira.

 

(*) Maurizio Stupiggia vive em Bologna / Itália. Biosistemica.net

-    Trainer in Psicoterapia Biosistemica e co-fundador, com Jerome Liss, da “Società Internazionale Biosistemica”.

-    Vice Presidente da Italian Association for Body Psychotherapy. Professor assistente da Westdeutsche Akadoemie of Dusseldorf e Professor at Universidade de Bologna, onde ensina Teoria e Técnicas de Grupo.

·    Professor de Pedagogia na Universidade de Genova.

·    Trabalha como terapeuta e ministra treinamentos na Itália, em alguns países europeus, no Japão e América Latina.