| |
|
|
ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE
CORRELATOS NEURAIS DA CONSCIÊNCIA |
|
por
Mário Márcio Negrão -
Médico Neurologista e Psicoterapeuta - CRM 3258 |
marionegrao.orgone@gmail.com |
“A experiência da consciência é sem dúvida o grande
nó, confuso e notório, da ciência psicológica. Somos todos seres
conscientes, mas a consciência não pode ser observada diretamente, a não ser dentro nós mesmos, e apenas em
retrospecto”
Bernard Baars
Definições
Consciência, de acordo
com o dicionário Merriam-Webster é "tomar conhecimento de um
objeto do mundo externo". Para que essa definição se preste à
uma discussão da consciência dentro de um sentido mais biológico
e, principalmente, mais humano, teríamos que acrescentar pessoas e
situações, pois o nosso mundo não consiste apenas de objetos
inanimados. Também importante é incluir o mundo interno com suas
sensações, pensamentos e sentimentos. Mesmo com esses cuidados,
essa definição fica longe do satisfatório, especialmente em
relação à sua passividade, pois não há indícios de algum tipo de
reação ou interação com esses estímulos, nem tampouco há a
formação de algum conceito, juízo, sentimento ou raciocínio.
Definições assim excluem um dos
componentes mais importantes da consciência, que é sua
contribuição ao comportamento humano complexo. O Dicionário
Aurélio define a palavra como "um atributo altamente
desenvolvido na espécie humana pelo qual o homem toma em relação
ao mundo (interior e exterior). É aquela distância em que se cria
a possibilidade de níveis mais altos de integração". Se
substituíssemos a segunda palavra atributo por atitude,
ficaria um pouco mais próximo do que ocorre em nossas vidas, mas
ainda assim não explica como cada pessoa reage de acordo com sua
individualidade.
É importante que se entenda por
sentir (registrar isoladamente as propriedades de um
estímulo) perceber, (reunir as diferentes propriedades de
um objeto num todo coerente, porém sem uma compreensão de seu
significado, que é registrar a presença de alguma coisa sem uma
análise mais profunda), conhecer (quando se trata de
ter noção da individualidade e significado de uma coisa) e
aprender (fazer uso desse conhecimento para comportamentos
futuros).
Examinando a origem da palavra,
ela ocorre pela junção de dois termos latinos: cum (com) e
scio (conhecer), significando o compartilhamento do
conhecimento consigo mesmo. Paulo Dalgalarrondo1
atribui pelo menos três acepções diferentes a essa palavra:
1) Um
sentido neuropsicológico, usado principalmente por
neurologistas e internos em pronto-socorro, significando o grau de
clareza do sensório. É medida pela escala de Glasgow, tratando-se
especificamente do nível da consciência. Depende
principalmente do sistema reticular ascendente (SRAA), ao
contrário da consciência, num sentido mais cognitivo, que depende
mais do córtex frontal e temporal, incluindo interações
tálamo-corticais e límbicas. Alterações típicas dessa abordagem
seriam as alterações quantitativas como obnubilação, sopor e
coma, que indicam graus progressivos de diminuição do estado
vigil. Exemplos qualitativos de alterações da consciência num
sentido neuropsicológico incluem: estados crepusculares
(estreitamento transitório do campo da consciência com razoável
preservação de algumas funções psicomotoras, principalmente as
automáticas, ocorrendo na epilepsia temporal e do tipo petit-mal),
dissociação da consciência (designa a fragmentação do
campo da consciência, ocorrendo nos estados oníricos e histéricos)
e transe (estado de dissociação que se assemelha ao sonho
acordado). Finalmente temos o delirium (estado
confusional agudo), observado nos estados tóxicos, febris e
traumáticos. Este termo não deve ser confundido com delírio,
que é um distúrbio do juízo, mais comumente observado nos estados
psicóticos.
2) Um
sentido psicológico, significando a soma total das
experiências conscientes de um indivíduo em um determinado
momento, constituindo assim a dimensão subjetiva da atividade
psíquica do indivíduo. Nesse sentido, o que está sendo aferido é
sua capacidade de entrar em contato com a realidade, percebendo e
conhecendo seus objetos. Esta é a dimensão que mais nos
interessa nesse artigo porque depende das funções cognitivas da
mente. Diferentemente do aspecto neuropsicológico, que depende
principalmente do SRAA, a consciência, num sentido mais cognitivo,
depende da integridade do córtex pré-frontal e temporal, assim
como das interações tálamo-corticais, estruturas subcorticais como
os gânglios da base e o sistema límbico, entre muitas outras
estruturas igualmente importantes como veremos a seguir.
3) Um
sentido ético-filosófico significando aspectos éticos,
filosóficos, morais, políticos e jurídicos. Essa dimensão
representaria o homem desenvolvido e responsável, engajado na
dinâmica social de determinada cultura. Esses aspectos, por
depender de uma forma muito mais indireta dos correlatos neurais
da consciência, escapam do âmbito desse trabalho e não serão
discutidos em detalhes aqui em decorrência da mais completa falta
de sabedoria do autor a respeito desse assunto.
A consciência é um fenômeno
subjetivo
Se adotarmos a noção
de que a consciência é uma forma de viver experiências e que na
nossa espécie isso se consegue através do sistema nervoso humano e
da maneira como ele é montado, temos que admitir que nossa forma
de viver essas experiências estará restrita às nossas
características neuroanatômicas e neuroquímicas. Em última
análise, nossa capacidade de entrar em contato com objetos,
situações e pessoas, será através da formação de imagens, o
que nos leva a um possível conceito básico: Toda experiência
humana é subjetiva. Citando Gregory Bateson2:
“É significativo
que toda percepção consciente possui características de imagem.
Uma dor se localiza em algum lugar, possuindo um início um fim e
um local, destacando-se contra um plano de fundo. Estes são os
componentes elementares de uma imagem. Quando alguém pisa no meu
pé, o que eu experiencio não é o seu pisar e sim a imagem disso
que é reconstruída através de relatórios neurais que chegam ao meu
cérebro, vindos desse mesmo pé. Nesse sentido, experiências são
atos de criação, possuindo uma natureza subjetiva e não
objetiva... Não é trivial notar que poucas pessoas, pelo menos na
cultura ocidental, duvidam da objetividade da experiência. Nossa
civilização esta profundamente arraigada nessa ilusão”.
Lembro-me, com
carinho, da deliciosa biografia do Dr. Johnson, escrita por Boswel,
onde numa ocasião, quando o personagem principal está discutindo
com outras pessoas a respeito da realidade de uma pedra à sua
frente, ele aplica um chute violento na mesma, dizendo: “Refuto
sua teoria subjetiva assim!” À primeira vista podemos até
concordar com esse notável arauto do bom senso, mas no fim, temos
que concordar que sua experiência do chute, ainda que vivida por
ele mesmo, também consistia de uma imagem proprioceptiva (a imagem
interna de seu corpo chutando a pedra).
Citando Humberto Maturana3:
“Quando se coloca
a objetividade entre parênteses, todos os pontos de vista e versos
são igualmente válidos”. Ao compreender isso, você perde a paixão
para mudar o outro... No entanto, se os outros também põem a
objetividade entre parênteses, você descobre que desacordos só
podem ser resolvidos entrando dentro de um domínio de co-inspiracão, no qual as coisas são feitas juntas porque as
pessoas assim querem. Com a objetividade entre parênteses, é
fácil fazer as coisas em conjunto porque um não está negando o
processo do outro”.
Consciência e Representações
Num sentido mais
coloquial, representar pode ter variados significados, desde
tipificar ou descrever algo como possuindo determinadas
qualidades, até substituir um objeto por outro que possua
características semelhantes. Nesse sentido, um político pode
mandar alguém que seja seu representante para um velório. Dentro
de um enfoque mais psicológico, representar pode significar trazer
à mente uma imagem que retenha as características do objeto,
pessoa ou situação que desencadeou o processo mental de
representação.
De acordo com Fred Dretske4
representações possuem um veículo e um conteúdo. No caso de
um livro contendo uma estória sobre dragões, a estória e o livro
são veículos, mas não o conteúdo. É por isso que podemos inferir
que existe uma estória no livro e que essa é sobre dragões, mas
não podemos inferir que existem dragões de verdade dentro daquele
livro.
Em se tratando de
representações mentais, podemos dizer que o veículo (uma crença ou
experiência) está dentro da cabeça, porém aquilo no que se
acredita ou experimenta não está. Dessa forma, uma pessoa pode
imaginar um inimigo queimando no inferno quando na realidade esse
mesmo inimigo poderá estar confortavelmente em casa, ou nem mesmo
ser um inimigo de verdade.
Num sentido estritamente
neurofisiológico, uma representação é uma imagem resultante de um
determinado circuito de neurônios, axônios e dendritos
(representação em estado neural), que, quando ativados, produzem
essa imagem específica (representação em estado mental). Quando
essa imagem se encontra no início da cadeia de processamento como,
por exemplo, na medula ou córtex primário, ela estará rica em
informações que relatam as propriedades do objeto, sendo usada
dessa forma para gerar atividade reflexa. Quando ela se encontra
no topo da cadeia de processamento, como acontece em córtex
associativo, ela estará rica em significado e será usada para
gerar atividade reflexiva, como um pensamento, sentimento ou
comportamento motor complexo.
Consciência e Intencionalidade
A relação entre
consciência e intencionalidade fica clara quando se examina o
conceito de Ned Block6, ao estabelecer a diferença
entre consciência fenomenológica e consciência de acesso.
Nos seus termos mais simples, consciência fenomenológica refere-se
à experiência em si, ao passo que consciência de acesso se refere
a um certo grau de controle direto da consciência. Falando de uma
maneira mais exata, uma representação está acessível enquanto
disponível ao controle direto da razão, podendo-se elaborar um
relatório ou uma resposta motora a respeito.
Uma boa maneira de
entender a diferença entre as duas é examinar como uma funciona
sem a outra. Por exemplo, na Síndrome de Anton, que decorre de
uma lesão das áreas visuais occipitais, o paciente está cego, mas
ao mesmo tempo nega essa cegueira, ou seja, quando um objeto é
colocado em seu campo visual, ele nega que não o está vendo. No
entanto, se o mesmo objeto for jogado em sua direção, ele poderá
agarrá-lo automaticamente, o que ilustra uma situação onde uma
pessoa pode ter acesso a um estímulo visual, para guiar um ato
motor nesse exemplo, sem ter a experiência daquele fenômeno visual
em si. O caso oposto, um fenômeno sem acesso, ocorre naquelas
ocasiões em que você só nota a presença de uma geladeira quando
ela desliga subitamente.
Essa idéia foi levada
muito mais adiante com o trabalho de Bernard Baars7,
através de sua teoria sobre o espaço global de trabalho:
“O modelo de
espaço global de trabalho consiste num sistema distribuído de
circuitos especialistas, equipados com uma memória operante,
chamada de espaço global de trabalho, cujo conteúdo pode ser
irradiado para o sistema como um todo. O sistema inteiro se
assemelha a uma comunidade humana equipada com uma estação de
televisão. Interações rotineiras podem ocorrer sem essa estação,
mas novidades, que requerem a cooperação de muitos especialistas,
têm que ser irradiadas para todo o sistema global. Dessa forma,
eventos novos demandam um acesso maior ao sistema global”.
Nesse modelo, sistemas especialistas exercem suas
funções de maneira competitiva. Quando o produto de um deles é
mais intenso, repetitivo ou relevante que os demais, seu conteúdo
assume controle do sistema inteiro.
Consciência e
atenção
Segundo Dalagarrondo, a atenção pode ser definida como a
direção da consciência, o estado de concentração da atividade
mental sobre determinado objeto. Numa afirmação famosa de William
James:
“Milhões de itens
que são apresentados aos meus sentidos nunca ingressam
propriamente em minha experiência. Por quê? Porque esses itens não
são de interesse para minha pessoa. Minha experiência é aquilo que
eu consinto em captar. Todos sabem o que é atenção. É o tomar
posse pela mente, de modo claro e vívido, de um entre uma
diversidade enorme de objetos ou correntes de pensamentos
simultaneamente dados. Focalização, concentração da consciência
são sua essência. Ela implica abdicar de algumas coisas para lidar
eficazmente com outras”.
Essa idéia, proferida
há quase um século atrás, encontra repercussão numa teoria mais
moderna, proposta por David LaBerge8
“A experiência de
atender a um objeto se torna uma experiência de estar ciente
daquele objeto quando ao mesmo tempo se atende a uma representação
do self”.
Estar ciente de
alguma coisa só ocorre quando uma experiência torna-se “minha
experiência”. Nesse sentido, a atenção é um evento mental que
consiste na neuroatividade simultânea em três áreas distintas,
interconectadas por um circuito triangular: 1) grupos de neurônios
no córtex anterior e posterior que servem a funções cognitivas tal
como a percepção de objetos, assim como a organização e execução
de planos de ação; 2) núcleos talâmicos, que intensificam a
atividade nas áreas corticais mencionadas; 3) grupos de neurônios
no córtex pré-frontal, que controlam essa atividade.
Consciência e
Evolução
O processo Darwiniano
clássico de Seleção Natural talvez não seja a única maneira de se
atingir qualidade para as espécies. Nas palavras de William Calvin9:
“A maneira pela
qual a qualidade é atingida usando o processo Darwiniano tem
ocupado há muito tempo os melhores pensadores em biologia
evolutiva (Maynard Smith e Szathmáry, 1995). E a lenta evolução
das espécies através dos milênios não pode ser o único exemplo: a
resposta imune é agora conhecida como constituindo outro processo
Darwiniano, operando numa escala de tempo e dias ou semanas à
medida que anticorpos cada vez melhores são elaborados em resposta
ao desafio de novos antígenos”. Os elementos que compõem o padrão
Darwiniano clássico seriam:
Um padrão que se
replica, com variações ocasionais, onde populações competem dentro
de um ambiente onde as variantes futuras estão entre os mais bem
sucedidos”. No caso do córtex cerebral isto seria correspondido
como: disparos de grupos celulares que se replicam com ocasionais
variações, alguns ganhando a atenção por dominância. Os padrões
mais bem sucedidos transformam-se em arranjos temporários que
dominam a consciência.
Um claro exemplo é a
rápida resposta de imunológica para novos antígenos.
Assim como as
criaturas podem mudar rapidamente suas respostas imunológicas,
nosso córtex cerebral também pode efetuar mudanças em curto prazo,
através de processos competitivos constantes, produzindo respostas
cada vez mais adaptadas. Nessa visão de William Calvin, todo o
nosso acervo de memórias de experiências decorrentes de nossa
história pessoal mesclam-se com eventos presentes, de uma forma
adaptativa.
“Seres humanos
estão perpetuamente encadeando coisas: fonemas viram palavras, que
viram frases que se transformam em sentenças. Conceitos viram
cenários...Nosso cérebro usa regras gramaticais para criar uma
linguagem muito produtiva gerando um sem numero de
mensagens...nossos avanços derivam de regras de arranjo”.
Resumo
A consciência
significa a soma total das experiências mentais de um indivíduo em
um determinado momento, constituindo assim a dimensão subjetiva da
atividade psíquica deste. Nossa capacidade de entrar em contato
com objetos, situações e pessoas, será através da formação de
imagens, o que nos leva a um possível conceito básico: toda
experiência humana é subjetiva, ocorrendo basicamente por
representações. Representar pode significar trazer à mente
uma imagem que retenha as características do objeto, pessoa ou
situação que desencadeou o processo mental de representação.
Representações possuem um
veículo e um conteúdo. A relação entre consciência e
intencionalidade fica clara ao estabelecer a diferença entre
consciência fenomenológica e consciência de acesso. Nos
seus termos mais simples, consciência fenomenológica refere-se à
experiência em si, ao passo que consciência de acesso refere-se a
um certo grau de controle direto da consciência.
A atenção pode ser definida
como a direção da consciência, o estado de concentração da
atividade mental sobre determinado objeto. A experiência de
atender a um objeto torna-se uma experiência de estar ciente
daquele objeto quando, ao mesmo tempo, se atende a uma
representação do self.
A consciência pode apresentar
maneiras inovativas do modelo Darwiniano: assim como bactérias
podem mudar rapidamente suas respostas imunológicas, nosso córtex
cerebral também pode efetuar mudanças em curto prazo, através de
processos competitivos constantes, produzindo respostas cada vez
mais adaptadas.
Bibliografia
1
- Paulo
Dalgalarrondo - Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos
Mentais
Artmed Editora
2000
2 -
Gregory Bateson - Ecology of Mind
http://www.oikos.org/baten.htm
3 -
Humberto Maturana - Ecology of Mind
http://www.oikos.org.org/maten.htm
4
-
Fred Dretske - Experience as Representation
http://humanities.ucsc.Edu/NEH/dretske1.htm
5 -
Charles Siewert - Consciousness and
Intentionality
http://plato.stanford.edu/entries/consciousness-intentionality/
6 -
Ned Block -How Not to Find
the Neural Correlate of Consciousness
http://www.nyu.edu/gsas/dept/philo/faculty/block/papers/NeuralCorrelate.html
7 -
Bernard Baars - A
Cognitive Theory of Consciousness
http://www.nsi.edu/users/baars/BaarsConsciousnessBook1988/CTC_ch01.html
8 -
David LaBerge - Defining
Awareness by the triangular circuit of attention
http://psyche.cs.monash.edu.au/v4/psyche-4-07-laberge.html
9 -
William Calvin -The Brain as a Darwin Machine
http://williamcalvin.com/1980s/1987Nature.htm
|