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TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO |
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por
Mário Márcio Negrão -
Médico Neurologista / Psicoterapeuta
- CRM 3258 |
marionegrao.orgone@gmail.com |
Introdução
“Cerca de
nove anos atrás, meu marido e eu fomos atacados em nosso quarto
por um ladrão. Fomos esfaqueados várias vezes e tivemos que ser
hospitalizados. Depois da alta, passamos um mês na casa dos meus
pais para nos recuperarmos. Quando voltamos a New York tentamos
viver uma vida normal novamente, mas ficou difícil.
Meu
marido dormia com um taco de baseball e eu tinha que inspecionar o
apartamento inteiro toda noite antes de dormir.
Depois de
alguns anos esses sintomas haviam desaparecido. De repente eles
voltaram, muito piores do que antes. Eu queria morrer. Eu queria
matar alguém. Nessa época, comecei a beber. Minha terapeuta me
ajudou a lembrar como eu, naquela noite, me tranquei para fora do
apartamento e deixei meu marido, sozinho, lutando com o ladrão . É
a única coisa da qual eu não me perdôo e isso impede com que eu
continue minha vida normal.
Iniciei o
uso de remédios, recomendados por um psiquiatra e em decorrência
passei a ter um sono anormal. Em conseqüência disso, já bati o
carro várias vezes e cochilo em qualquer lugar a qualquer hora.
Tenho variações de humor, geralmente para baixo. Eventualmente
comecei a ter crises psicóticas e ganhei
muito peso. Já fui hospitalizada cinco vezes, duas vezes por
tentativa de suicídio.”
Relato verídico resumido, extraído de:
http://www.mental-health-today.com/ptsd/story.htm
Definição
O DSM-IV define
o Transtorno de Estresse Pós-Traumático da seguinte maneira:
“A
característica essencial do Transtorno de Estresse Pós-Traumático
é o desenvolvimento de sintomas característicos após a exposição a
um extremo estressor traumático. Os eventos traumáticos
vivenciados diretamente incluem, mas não se limitam a, combate
militar, agressão pessoal violenta (ataque sexual, ataque físico,
assalto à mão armada, roubo), seqüestro, ser tomado como refém,
ataque terrorista, tortura, encarceramento como prisioneiro de
guerra ou em campo de concentração, desastres naturais ou causados
pelo homem, graves acidentes automobilísticos ou receber o
diagnóstico de uma doença que traz risco de vida.
Para crianças,
os eventos sexualmente traumáticos podem incluir experiências
sexuais inadequadas em termos do desenvolvimento, sem violência ou
danos físicos reais ou ameaçadores. Os eventos testemunhados
incluem, mas não se limitam a, observar sérios ferimentos ou morte
não-natural de uma outra pessoa devido a ataque violento,
acidente, guerra ou desastre, ou deparar-se inesperadamente com um
cadáver ou partes de corpos humanos.
Os eventos
vivenciados por outros, dos quais o indivíduo toma conhecimento,
incluem, mas não se limitam a ataque pessoal violento, sério
acidente ou ferimentos grave sofridos por um membro da família ou
amigo íntimo; conhecimento da morte súbita ou inesperado de um
membro da família ou amigo íntimo; conhecimento de uma doença com
risco de vida em um dos filhos. O transtorno pode ser
especialmente severo ou duradouro quando o estressor é de origem
humana (por ex. tortura, estupro). A probabilidade do
desenvolvimento deste transtorno pode aumentar com aumento da
intensidade e proximidade do estressor.”
Fatores
predisponentes tais como traços de personalidade ou outra história
psiquiátrica prévia podem baixar o limiar para o desenvolvimento
da síndrome ou agravar o curso, porém não são necessárias nem
suficientes para explicar sua ocorrência.
O início do
quadro segue o trauma com um período de latência de várias semanas
a alguns meses, raramente excedendo a seis meses. Cerca de 50% dos
casos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático mostram remissão em
6 meses.
O curso da
doença pode ser flutuante, mas a recuperação é esperada na maioria
dos casos. Uma pequena proporção de pacientes podem sofrer um
curso crônico de muitos anos. Um estudo longitudinal de veteranos
do Vietnam mostrou que 15% desses ainda sofriam de Estresse
Pós-Traumático até 19 anos depois da exposição ao estresse (McFarlane
e Yehuda, 1996). Alguns podem até sofrer uma transição para um
transtorno de personalidade mais duradouro, ou para uma depressão.
Epidemiologia
Na população
geral a prevalência de um ano é de 3.6%, sendo que as mulheres
mostram o dobro da prevalência em relação aos homens (Kessler,
1995). A maior prevalência do Estresse Pós-Traumático se encontra
em mulheres vítimas de crime, especialmente o estupro. De uma
maneira mais geral, 9% de pessoas expostas a trauma extremo
desenvolvem esse transtorno.
Diagnóstico
O diagnóstico do
Transtorno de Estresse Pós-Traumático se estabelece com seis
elementos básicos que envolvem: condições do trauma;
re-experiência; comportamento esquivo; hiper-excitabilidade;
duração dos sintomas e prejuízo funcional.
A) O
evento traumático possui as seguintes características:
1- A
pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada por morte, dano
físico ou psicológico sério, para si, assim como para outros, de
maneira concreta ou sob forma de ameaça.
2- A
resposta pessoal consistiu em medo intenso, impotência perante o
fato e horror. Em crianças essa resposta envolve comportamento
agitado e desorganizado.
B) O
evento traumático é re-vivido através de uma ou mais das seguintes
maneiras:
1- Recordações
repetidas e invasivas do evento sob forma de imagens, pensamentos
ou percepções. Em crianças isso pode ser vivido através de
brincadeiras repetitivas que expressam temas do trauma.
2- Sonhos
repetitivos e inquietantes do evento. Em crianças isso pode ser
vivido através de pesadelos inespecíficos para o evento.
3- Atos
ou sentimentos que dão a impressão de que o evento traumático
esteja recorrendo através de delírios, alucinações e fenômenos
dissociativos do tipo “flashback”, que podem ocorrer de
maneira espontânea ou ao acordar, ou ainda enquanto intoxicado por
alguma substância.
4- Intenso
desconforto psicológico e físico que ocorre perante indicadores
que parecem com ou simbolizam o evento traumático.
5- Intensa
reatividade psicológica que ocorre perante indicadores que parecem
com ou simbolizam o evento traumático.
C) Comportamento
esquivo persistente em relação a indicadores associados ao trauma
com embotamento da reatividade geral.
1- Evita
pensamentos, sentimentos ou conversas associadas ao trauma.
2- Evita
atividades, lugares ou pessoas associadas ao trauma.
3- Incapacidade
em recordar alguns aspectos do trauma.
4- Diminuição
do interesse e da participação de algumas atividades.
5- Desligamento
das pessoas.
6- Diminuição
da amplitude do afeto.
7- Sensação
de futuro interrompido em relação à carreira, casamento ou tempo
de vida.
D) Sintomas
persistentes de hiper-excitabilidade, indicado por dois ou mais
dos seguintes:
1- Dificuldade
em adormecer ou permanecer dormindo
2- Irritabilidade
e surtos de raiva
3- Dificuldade
com a concentração
4- Hipervigilância
5- Reação
de sobressalto exagerada.
E) Duração
dos sintomas dos critérios B, C e D é maior do que um mês.
F) O
distúrbio causa sofrimento ou impedimento de atividades sociais e
ocupacionais.
Especificar:
· Se
os sintomas são agudos (duração menor que um mês)
· Se
os sintomas são crônicos (duração maior que três meses ou
mais)
· Se
o início é tardio (mais do que seis meses após o estressor)
A
seguinte constelação de sintomas associados pode ocorrer:
sensações de inutilidade, vergonha, desespero ou desamparo;
sensação de dano permanente; perda de crenças anteriormente
mantidas; hostilidade; retraimento social; sensação de constante
ameaça; prejuízo no relacionamento com outros; ou uma mudança nas
características anteriores de personalidade do indivíduo.
Fisiopatologia
Existe evidência
de que o Transtorno de Estresse Pós-Traumático possa ser
acompanhado por alterações estruturais. Alguns estudos com MRI
mostram uma redução de volume no hipocampo em pacientes com TEPT (Bremner
et al, 1995)1, (Gilbertson et al, 2002)2.
Outras estruturas alem do hipocampo também receberam atenção como
redução global do volume cerebral (De Bellis, 1999)3,
redução de substância branca (Villarreal, 2002)4,
redução do corpo caloso(De Bellis, 1999)5 e aumento do
volume da substância cinzenta do giro temporal superior(De Bellis
2002)6. Além disso, estudos de neuro-imagem funcional
têm revelado aumento da atividade na amídala, estruturas
paralímbicas anteriores e área de Broca em pacientes com TEPT (Pitman,
2001)7-(Shin, 2001)8. Uma diminuição da
atividade de N-acetil-aspartato, um indicador de integridade
neuronal, tem sido descrito no hipocampo de pacientes com TEPT (Schuff
2001)9-(Villarreal, 2002)10
Centenzone et al
(2005)11 estudou 14 pacientes com TEPT adquirido depois
de trauma craniano leve, usando estimulação magnética
transcraniana para determinar anormalidades da excitabilidade do
córtex motor. Todos demonstraram diminuição da inibição nessa
área, mostrando que alterações de circuitos corticais inibitórios
podem participar na fisiopatologia de distúrbios de ansiedade.
Essas alterações podem indicar um estado de desequilíbrio entre o
neurotransmissor inibitório GABA e Glutamato, um neurotransmissor
excitatório, no córtex.
É possível que
uma potencialização da transmissão mediada por glutamato em longo
prazo, induzida por estresse, possa representar um correlato
sináptico da manutenção de memórias traumáticas que causam TEPT.
Outros estudos já mostraram transformações crônicas que poderiam
contribuir para alguns dos sintomas mentais em TEPT (Bryant, 2003)12,
(Hull, 2002)13.
Comorbidade
Pode haver um
risco aumentado de Transtorno de Pânico, Agorafobia, Transtorno
Obsessivo-Compulsivo, Fobia Social, Fobia Específica, Transtorno
Depressivo Maior, Transtorno de Somatização e Transtornos
Relacionados a Substâncias. Não se sabe até que ponto esses
transtornos precedem ou se seguem ao início do Transtorno de
Estresse Pós-Traumático.
Achados laboratoriais associados. O aumento na excitabilidade pode
ser medido por estudos do funcionamento autonômico (por ex. ritmo
cardíaco, eletromiografia, atividade das glândulas sudoríparas).
Tratamento
-
Psicoterapia
Manejo da
Ansiedade (o ensinamento de habilidades que ajudam a lidar com o
estresse)
-
Técnicas de
relaxamento:
ensinando os pacientes a controlar o medo e a ansiedade
relaxando sistematicamente os principais grupos musculares.
-
Aprendizagem
respiratória:
ensinando a respiração abdominal lenta para ajudar o paciente a
relaxar e evitar a hiperventilação.
-
Pensamento
positivo e auto conversa:
ensinando o paciente a substituir pensamentos negativos (“vou
perder o controle”) com outros, mais positivos (“eu consegui
antes e vou conseguir novamente”)
-
Técnicas de
assertividade:
ensinando o paciente como expressar desejos, opiniões e emoções
apropriadamente e sem alienar os outros.
-
Freando
pensamentos negativos:
usando comandos internos para parar pensamentos negativos.
-
Terapia
Cognitiva:
ajuda a
modificar presunções não realistas, crenças e pensamentos
automáticos que levam à emoções perturbadoras e impedimento do
funcionamento. Por exemplo, vítimas de trauma muitas vezes têm
sentimentos de culpa relacionadas ao trauma: uma vítima de estupro
pode achar que foi tudo sua culpa. O objetivo da terapia cognitiva
é ensinar o paciente como identificar suas cognições
disfuncionais, pesar a evidência a favor e contra essas, e adotar
pensamentos mais realistas que irão gerar emoções mais
equilibradas.
-
Técnicas de
exposição:
ajudar o
paciente a confrontar situações específicas, pessoas, objetos,
memórias, ou emoções associadas ao estressor. Isto pode ser
conseguido de duas maneiras:
-
Exposição
imaginária:
o recontar
repetido de memórias traumáticas até que elas não evoquem mais
um alto conteúdo emocional
-
Exposição
in vivo:
reviver
comportamentos antes inquietantes porque estavam ligadas ao
estressor (ex: dirigir um automóvel depois de um acidente de
trânsito)
-
Ludoterapia:
ensinando às crianças brincadeiras e jogos que permitem a
introdução de tópicos proibidos que facilitam o reprocessamento de
memórias traumáticas.
-
Psico-educação:
esclarecer para o paciente e seus familiares sobre os sintomas do
Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Também inclui a reeducação
sobre as comorbidades.
Farmacoterapia
Brady (2000)14,
conduziu um estudo com placebo em 187 pacientes com TEPT usando
sertralina durante 12 semanas e constatou-se que 53% dos pacientes
que receberam sertralina mostraram uma melhora significativa em
relação a 32% dos pacientes recebendo placebo.
Os benefícios
desse medicamento apareceram nas primeiras 4 semanas na maioria
dos casos. O autor comenta que mais estudos são necessários para
determinar se subgrupos de pacientes poderiam se beneficiar com
psicoterapia cognitiva ou uma combinação de CBT e sertralina.
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