CASAR, SEPARAR E, EM SEGUIDA, FAMÍLIAS RECOMPOSTAS!

por Tayana Kunrath de Oliveira - Psicóloga - CRP 08/16090

tayana.orgone@gmail.com

 

Nos últimos tempos a família e o casamento têm sofrido variadas transformações, de modo a modificar certas concepções que eram consideradas como verdades absolutas ao longo da história. A família tradicional cede lugar a várias novas configurações familiares que se tornam mais visíveis, requerendo legitimidade e maior aceitação por parte da sociedade. Nos dias de hoje a família pode ser nuclear, monoparental, homoparental, recomposta, desconstruída, composta artificialmente, e assim por diante.

Iremos discorrer acerca da família recomposta; esta modalidade de família é criada uma vez que há a união oficializada (com casamento civil)  entre um homem e uma mulher que ambos ou apenas um deles já tenha sido casado anteriormente. A família recomposta pode ser composta pelos cônjuges e seus respectivos filhos, se houverem. Este novo sistema que surge geralmente interage frequentemente com outros sistemas, por exemplo, a mãe dos filhos do pai da família recomposta, ou a visita de filhos e parentes da família anterior. Para que a família recomposta possa conviver sem muitos problemas é preciso que haja um traquejo entre seus integrantes para que o convívio seja agradável e respeitoso para todos.

            Uma vez que os novos cônjuges decidem que irão formar uma nova família, é interessante se observar como esta será criada. Segundo Cutsen (2004), geralmente quando um casal resolve ficar junto há os rituais de passagem, na qual o casal se despede do berço de origem e declara para a sociedade que já estão prontos para constituir uma família. Nestes casos, geralmente ocorre uma festa para a celebração da união. No entanto, quando trata-se de cônjuges que já estão na segunda família o processo geralmente acontece de forma diferente. O que marca o ritual de passagem desta família recomposta? Seria a passada para uma moradia em conjunto? Seria o casamento civil? Seria uma festa?

O ritual do casamento funda a legitimidade jurídica do casal e altera a identidade social da família. Os pais de cada cônjuge tornam-se sogros do outro, os irmãos e irmãs tornam-se cunhados e cunhadas, etc. Em geral, a esposa adota o sobrenome do seu marido, e portanto precisa alterar seus documentos, e consequentemente incorporar um novo nome a sua identidade.

Quando um ex-cônjuge com filhos resolve procurar um parceiro, é importante questionar se este parceiro terá como função principal o papel de cônjuge ou papel parental, ou seja, esse parceiro é para ser parceiro ou pai ou mãe dos filhos deste que o procura? Qual é a intenção inicial para esse relacionamento?

A esperança e a expectativa de constituir uma segunda família é muito grande, porém, estes sentimentos estão permeados de medos e tristezas, afinal a família recomposta surge pelo fracasso de uma primeira tentativa.

A cisão de um sistema familiar nuclear em dois outros subsistemas provoca numerosas reações. A perda de um laço conjugal e as possíveis consequências que isso trás podem induzir a um processo de luto delicado. Por definição, Bowlby (1984-1985) afirma que o luto é uma decorrência de processos psicológicos conscientes e inconscientes que são desencadeados pela perda.

A separação é um tempo de reflexão, da tentativa de se reequilibrar no que se refere a ser cônjuges e pais. É importante se considerar que cônjuges podem deixar de ser cônjuges, porém, pais sempre serão pais. Por esta razão, ressalta-se a importância dos pais compreenderem o quão importante é a cumplicidade quanto a educação de seus filhos, e que esta deve ser preservada. Situações de festas comemorativas como batizados, aniversários, formaturas e casamentos provavelmente irão requerer a presença de ambos, e os pais devem saber se portar como pais e focarem na celebração que acontece e deixarem de lado seus conflitos ex-matrimoniais.

Em muitos casos, após a separação física, os cônjuges sentem-se aliviados pelo fim do pesadelo.  No entanto, quando a separação é pedido de apenas uma das partes, a parte requerente pode encontrar na raiva uma forma de se manter ligado ao ex-cônjuge. Geralmente este processo ocorre sem que a pessoa se dê conta das consequências deste comportamento. De forma implícita, pode haver sentimentos de rancor por ter sido deixado pra trás, ou ainda, de não querer que o outro siga a sua vida em frente com outra pessoa. 

Os primeiros meses de uma família recomposta é marcado por muita insegurança implícita por parte dos cônjuges. Eles geralmente se questionam se a escolha tomada foi a mais adequada, de como as coisas irão funcionar, e se caso não der certo o que fazer. Estas indagações referem-se a indivíduos que estão tentando com todas as suas forças pela segunda vez formar uma família e ter um lar agradável de se estar. O receio ainda é maior quando ambos os cônjuges tem filhos que irão viver sob o mesmo teto.

Quando os filhos passam a residir com o casal recém recomposto é interessante estabelecer regras de funcionamento, mas não pressioná-los quanto a construção de uma amizade e irmandade. É preciso recordar neste momento que a família recomposta foi escolha dos cônjuges e pais, e não das crianças. As crianças são parte do “pacote”. Forçar uma convivência agradável entre as crianças pode aumentar a inimizade entre elas, especialmente se as crianças encontrarem neste caso um álibi para expressar suas angústias e mágoas quanto a desintegração da família de origem.

Nestes casos, além de terem que conviver com seus meio-irmãos, terão que conviver com uma madrasta ou padrasto. Pois então, como fica a questão do poder de educar nessas situações? A madrasta pode mandar que sua enteada lhe obedeça? Estas questões devem ser cuidadosamente abordadas pelos cônjuges, e posteriormente discutida com os filhos e enteados. Um diálogo aberto pode ser a melhor alternativa para que as novas regras criadas pelos novos pais sejam efetivamente colocadas em prática. Estabelecer estas regras no começo da relação facilita futuros desentendimentos entre todos os membros da família.

É importante dar tempo para as crianças elaborarem toda a transformação ocorrida. Elas foram coadjuvantes nesta transformação e, portanto, não tiveram autonomia para escolher estar ali com aquelas pessoas e naquele momento. Crianças pequenas podem manifestar comportamentos regressivos como enurese noturna, fala errada, choros, birras e outros para manifestar o seu desejo por atenção ou o fato de elas não estarem conseguindo elaborar as transformações de uma forma natural. O mais adequado nestes casos é dar uma atenção a criança, tentar explicar a ela o que está acontecendo e demonstrar que está tudo bem, está protegida e que é amada. Transmitir segurança para ela pode ser uma alternativa pertinente. 

É importante que haja o equilíbrio entre a função conjugal e parental, pois desta forma, o casal consegue delimitar onde um papel interfere no outro. Se estas funções se desequilibram o casal começa a entrar num ciclo contínuo de confusões quanto as funções e papéis de cada um. É comum observar casais em que o marido chama a sua esposa de mãe e a esposa chama o marido de pai. Em casos como este, nota-se de certa forma que o casal é mãe e pai antes de ser cônjuges.

Uma vez que a família recomposta está devidamente constituída, os filhos de ambos os casais geralmente se perguntam se haverá um bebê proveniente do novo casal. Esse filho pode representar um elo de união entre os filhos de cada membro do casal ou uma indagação quanto ao como esta criança será educada, se os valores serão os mesmos dos seus próprios, etc.

            Quando a separação dos pais ocorreu antes dos três anos de idade da criança, ela geralmente não tem muitas lembranças de como era o convívio com a família nuclear. No entanto, em casos de divórcio, quanto mais velha for a criança, maior referencial ela vai ter do convívio social, e provavelmente irá comparar ao referencial que ela passa a ter na família recomposta. Quando trata-se de adolescentes, a comparação com a crítica negativa podem ser uma forma que ele encontra de provocar o progenitor pela mudança forçada que ele teve que fazer, ou por ter deixado de conviver com o outro progenitor. Na maior parte dos casos, os filhos sofrem, pois tem receio de abandono, ou da perda do amor de ambos os pais. A criança pequena expressa com manha e busca atenção, o adolescente sofre e expressa isso de uma forma mais agressiva e rebelde ou expressa de uma forma totalmente introspectiva.

            Existe a situação em que os novos cônjuges separaram-se em um período semelhante da vida, e possuem filhos com idades parecidas. Nestes casos, as funções de pais está clara e cada progenitor geralmente sabe como deve continuar a educar. Há casos, no entanto, em que os cônjuges possuem filhos com idades diferentes. Quando isto ocorre, a família vai ter que se dividir em alguns momentos, pois o ritmo será diferente. Uma criança de três anos demanda atenção diferenciada em relação a um adolescente de quinze anos. Ambas deverão ser atendidas e legitimadas, porém, em momentos diferentes e de formas diferentes.

            Momentos delicados serão normais ao longo de toda a vida quando se trata de famílias recompostas. Cita-se, por exemplo, o casamento dos filhos, quem senta-se na mesa dos noivos? O pai que entra com sua filha na igreja, ou o padrasto que foi quem o educou diariamente? Questões como estas serão resolvidas com muito cuidado, pois trata-se de um tema delicado, afinal, quem teria o direito? Ou ainda, quem a filha considera como pai para executar esta função?

            Na hora da partilha dos bens do primeiro casamento o casal geralmente se preocupa com os bens adquiridos com o esforço do trabalho de ambos, assim como a decisão da guarda das crianças. No entanto, geralmente há uma grande dúvida quanto aos álbuns de fotografia da família. Com qual dos cônjuges os álbuns de família devem ficar? Este bem material de baixo valor financeiro e altíssimo valor afetivo gera grandes discussões uma vez que não há regras lógicas de quem deve fiar com eles. É importante se considerar também o impacto que este álbum pode ter posteriormente na família recomposta, ou seja, que lembrança estas fotos podem suscitar a todo o instante que o cônjuge ou filhos deste revê as fotos. Fotos representam muitas lembranças, e se estas estão à vista, são para ser vistas.

Deve-se ter um manejo relacional cuidadoso com o ex-cônjuge do cônjuge da família recomposta. Caso este cônjuge tenha se sentido como deixado pra trás, ele terá um ressentimento maior e um provável desejo de arruinar a união que é iniciada. Por esta razão, sugere-se que o cônjuge possa conversar com esta pessoa, aconselhando-a de como prosseguir, de quando ver os filhos e de como exercer o seu papel de pai ou de mão sem interferir demasiadamente na família recomposta. Caso esta conversa não seja possível, é importante que algum dos familiares fique encarregado desta função ou um advogado, para que o cônjuge consiga elaborar o luto referente ao seu casamento e que a família recomposta possa seguir em frente sem impedimentos.

Atualmente muitas pessoas tem optado por não se casarem oficialmente. Será que esta decisão se deve ao fato dos casais terem perdido a ilusão do casamento feliz, ou será que este está tão vulgarizado que é melhor é não casar para não se incomodar na hora de separar? Ou será que atualmente os adolescentes estão saindo mais cedo de casa para estudar e não precisam do casamento para legitimarem a sua saída da casa dos pai? O que está acontecendo na nossa sociedade?

Ultimamente está ocorrendo muitos divórcios, estes acontecem a partir de um dia de casado até em muitos casos décadas de união. O fato é que o divórcio não quer dizer que há um desinteresse pelo casal, pelo contrário, o divórcio prova que o casamento é de tal importância, que não é possível decidir viver num casal quando este deixa de ser considerado gratificante.

Casar não quer mais dizer “na saúde e na doença até que a morte nos separe”, mas o novo lema designa-se “nós viveremos juntos enquanto pudermos manter um relacionamento agradável”. Isso indica que a valoração do casamento está sofrendo drásticas transformações.

A geração de classe média atual vive com um referencial de uma família composta por pai, mão, irmãos e a empregada ou a babá. Estes, no entanto podem ou não morar no mesmo teto, podem ou não fazer o que querem, são educados pelos pais, empregadas, babás ou pela escola. Estes fatores demonstram que as fronteiras quanto a estrutura familiar está em demasia difusa. Crianças hiperativas e depressivas comprovam como o sistema familiar de hoje está em crise. As regras não estão claras, portanto, questiona-se como serão as famílias do futuro? Os jovens de hoje irão aprender o que quanto a que família escolher ter? Questiona-se, o casamento não deu certo, ou os cônjuges que não sabem lidar com as dificuldades particulares e de casal?  Será que é mais fácil apontar o que o outro não tem ou tem, ou o que eu deixei de dar?

REFERÊNCIAS
BOWLBY, John. Apego e perda. São Paulo: M. Fontes, 1984-1985.
CUTSEM, Chantal van. A família recomposta: entre o desafio e a incerteza. Lisboa: Instituto Piaget, 2004.