FOBIAS ESPECÍFICAS
por Mário Márcio Negrão - Médico Neurologista / Psicoterapeuta - CRM 3258

marionegrao.orgone@gmail.com




“A única coisa que devemos temer é o medo em si, um terror sem nome e sem razão,
que paralisa os esforços necessários para converter a fuga em avanço.”

Franklin D. Roosevelt (no seu primeiro discurso inaugural presidencial, 4 de março 1933)


“Aquilo que tememos acontece mais rapidamente do que aquilo que esperamos”.
Publius Syrus -
Ditados Morais (10 século antes de Cristo)



“A solidão me assusta. Me faz pensar no amor, na guerra e na morte.
Preciso me afastar dos pensamentos escuros e ansiosos”.

Brigitte Bardot



“A coragem não é a ausência do medo e sim a capacidade de enfrenta-lo”.

Ten. John B. Putnam Jr. 
(1921-1944)

 
 

Introdução

       “Eu morro de medo de voar e nunca mais quero entrar num avião. Quando tenho que fazer uma viagem aérea, geralmente começo a sentir pavor um mês antes da partida. Quando fecha a porta da aeronave eu me sinto encarcerada. Meu coração começa a bater e eu começo a suar copiosamente. Na decolagem, ficava mais forte ainda a sensação de que eu não tinha escapatória. Só de pensar em voar me imagino perdendo o controle, enlouquecendo, me jogando contra as paredes do avião, mas é claro que nunca fiz isso. Meu medo não é de que o avião caia ou entre em turbulência, é mais aquela sensação de não ter uma fuga. Isso me prejudica muito, pois escolho empregos onde voar não é necessário. Só vou onde eu possa ir de carro ou ônibus. Meus amigos me dizem que também não posso saltar de um carro ou ônibus em movimento, mas isso não faz diferença; é mesmo um medo irracional”.

 

Medo e Ansiedade 

De acordo com o dicionário Merriam-Webster, ter medo é guardar uma expectativa negativa daquilo que está para acontecer, um sentimento de preocupação ante a noção de um perigo real ou imaginário. A ansiedade é uma preocupação mais aguda, que se expressa por uma intensa sensação de apreensão e medo juntamente com a dúvida com respeito à realidade e natureza da ameaça, como também sobre nossa capacidade de lidar com esse perigo iminente.

Ocasionalmente, a ansiedade pode se juntar a uma determinação em vencer o obstáculo e a isso chamamos de coragem. Dessa forma, o medo pode tanto nos paralisar quanto impulsionar. Medo, ansiedade e coragem são manifestações psíquicas, encontradas em situações normais de frustração e perigo. O sentimento de medo, acompanhado pela ansiedade e outros sentimentos como temor, receio, desamparo, abandono e rejeição, constitui um dos comportamentos mais antigos do homem. Algumas vezes o medo surge simplesmente porque algo que não esperamos ou compreendemos invade nossa consciência, como quando uma porta bate subitamente ou uma voz aparece aparentemente do nada. É por isso que uma explicação convincente nos traz uma paz maior do que qualquer medicamento. O medo surge quando nosso débil senso de ordem é rasgado pelo sempre presente mistério da tirania indiferente do caos, a única coisa com que realmente podemos contar. Como todo bom mistério, é assentado no paradoxo, pois às vezes é o próprio medo que nos faz crescer. Para Miranda – Sá Jr (2001)1 :

“A consciência do objeto do medo é convencionado como sendo o fator diferencial mais importante para o diagnóstico dos estados de ansiedade patológica, pois o medo é uma das características cardeais da humanidade. Suas formas mais conhecidas são o medo da morte, do sofrimento, da penúria, da vergonha e da culpa.

 

Fobia

            A palavra fobia deriva de Phobos, deusa grega do medo, é o medo patológico, focalizada em objetos ou situações que podem ser consideradas inofensivas por outras pessoas e que persiste mesmo depois que o paciente se dá conta da irracionalidade de seu medo. Dessa forma, a distinção entre o medo e a fobia não é quantitativa e sim qualitativa. Nesses casos, a ansiedade acompanhante deixa de ser normal e passa a ser uma ansiedade patológica. Veremos mais adiante que a fobia se estrutura em torno de um funcionamento neurobiológico anormal, sendo acompanhante de alguns distúrbios da mente, com alterações estruturais e neuroquímicas próprias. É caracterizada por um desejo intenso de evitar o estressor. Em alguns casos pode existir também uma incapacidade funcional.

A fobia é acompanhada, na maioria das vezes, pela ansiedade patológica. A angústia seria a ansiedade acompanhada por manifestações corporais, como sensação de constrição torácica, aperto na garganta, dispnéia, tonturas, palpitações, tremores e náuseas. Quando esse quadro é particularmente intenso e acompanhado por desrealização, despersonalização, medo de morrer ou enlouquecer, adota-se o termo pânico.

Em resumo: uma reação normal perante um estressor seria o medo acompanhado pela ansiedade, enquanto o medo acompanhado por ansiedade patológica e angústia constituem uma reação fóbica, que pode acompanhar outros distúrbios da ansiedade como: transtorno do pânico (com ou sem agorafobia), fobia social, transtorno de estresse agudo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de ansiedade generalizada. Quando a reação fóbica dirige-se a um único estressor como alturas, aranhas, animais etc, é chamada de fobia especifica.

 

Diagnóstico

O DSM-V2 estabelece os seguintes critérios para a fobia especifica: 

            “A característica essencial da Fobia Específica é o medo acentuado e persistente de objetos ou situações claramente discerníveis e circunscritos (Critério A). A exposição ao estímulo fóbico provoca, quase que invariavelmente, imediata resposta de ansiedade (Critério B). Esta resposta pode assumir a forma de um Ataque de Pânico, ligado ou predisposto pela situação. Embora adolescentes e adultos com o transtorno reconheçam que seu temor é excessivo ou irracional (Critério C), o mesmo pode não ocorrer com crianças.

Com maior freqüência, o estímulo fóbico é evitado, embora às vezes seja suportado com pavor (Critério D). O diagnóstico é apropriado apenas se a esquiva, o medo ou a antecipação ansiosa do encontro com o estímulo fóbico interferem significativamente na rotina diária, funcionamento ocupacional ou vida social do indivíduo, ou se ele sofre acentuadamente por ter a fobia (Critério E).

Em indivíduos menores de 18 anos, os sintomas devem ter persistido por pelo menos 6 meses antes da Fobia Específica ser diagnosticada (Critério F). Ansiedade, ataques de pânico ou esquiva fóbica não são melhor explicados por um outro transtorno mental (por ex. Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtorno de Ansiedade de Separação, Fobia Social, Transtorno de Pânico Com Agorafobia ou Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico) (Critério G).

O indivíduo experimenta um medo acentuado, persistente e excessivo ou irracional na presença ou previsão do encontro com determinado objeto ou situação. O foco do medo pode envolver a previsão de um dano causado por algum aspecto do objeto ou situação (um indivíduo pode temer viagens aéreas em razão de sua preocupação com quedas, temer cães por preocupação em ser mordido, ou ter medo de dirigir por preocupação envolvendo colisão com outros veículos na estrada).

As Fobias Específicas também podem envolver preocupações acerca de perder o controle, entrar em pânico e desmaiar, ante a exposição ao objeto temido. Por exemplo, os indivíduos que temem sangue e ferimentos podem também se preocupar com a possibilidade de desmaiar, e pessoas que temem situações em ambientes fechados podem também se preocupar acerca de perder o controle e gritar. A ansiedade é sentida quase sempre imediatamente ao confronto com o estímulo fóbico (uma pessoa com uma Fobia Específica a gatos quase que invariavelmente terá uma resposta imediata de ansiedade, quando forçada a se defrontar com um gato).

O nível de ansiedade ou medo geralmente varia em função do grau de proximidade com o estímulo fóbico (o medo intensifica-se enquanto o gato aproxima-se e diminui quando o animal se afasta) e da possibilidade de fugir ao estímulo fóbico (o medo intensifica-se enquanto o elevador chega ao ponto intermediário entre os andares e diminui quando as portas são abertas no piso seguinte). Entretanto, a intensidade do temor nem sempre tem uma relação previsível com o estímulo fóbico (uma pessoa que tem medo de alturas pode experimentar um temor de intensidade variável ao cruzar a mesma ponte em diferentes ocasiões). Às vezes, ataques de pânico completos são experimentados em resposta ao estímulo fóbico, especialmente quando a pessoa precisa permanecer na situação ou acredita que o escape seja impossível. Como ocorre uma ansiedade antecipatória acentuada quando o indivíduo se defronta com a necessidade de ingressar na situação fóbica, tais situações em geral são evitadas. Com menor freqüência, a pessoa força-se a suportar a situação fóbica, que é vivenciada com intensa ansiedade.

Os adultos com este transtorno reconhecem o caráter excessivo ou irracional da fobia. O diagnóstico deve ser de Transtorno Delirante, ao invés de Fobia Específica, no caso de um indivíduo que evita um elevador em vista de sua convicção de que este foi sabotado e que não reconhece o caráter excessivo ou irracional de seu medo. Além disso, o diagnóstico não se aplica se o medo é razoável, dado o contexto dos estímulos (medo de ser atingido por um tiro em uma área de caça ou vizinhança perigosa). O discernimento para a natureza excessiva ou irracional do medo tende a aumentar com a idade e não é exigido para o diagnóstico em crianças.

O medo de objetos ou situações circunscritas é muito comum, especialmente em crianças, mas em muitos casos o grau de prejuízo é insuficiente para indicar o diagnóstico. Este não é feito se a fobia não interfere significativamente no funcionamento do indivíduo ou não causa sofrimento acentuado. Por exemplo, uma pessoa que tem medo de cobras, a ponto de expressar intenso temor na presença delas não recebe um diagnóstico de Fobia Específica se mora em uma área onde não existem cobras, não sofre por ter medo de cobras e se o medo não restringe suas atividades.”



Tipos

Primeiramente, é necessário estabelecer uma diferença entre manias e fobias: As manias são desordens mentais que podem se manifestar pela repetição impulsiva de atos esquisitos como: a mania de cuspir repetidamente, a mania da perseguição em que o indivíduo se sente freqüentemente perseguido por intenções e atos dos que o rodeiam; a mania das limpezas que podem conduzir a uma fobia escravizante. Há pessoas que vivem mortificadas limpando, limpando o que muitas vezes está limpo, vendo sujidade insuportável na menor poeira. Existe ainda a mania de limpar as maçanetas das portas que leva à fobia dos micróbios e doenças por eles produzidas (nosofobias). É bom salientar que as manias, quando muito agravadas, podem tornar-se obsessões fóbicas.

A mania das limpezas conduz a pessoa ao extremo por mais cansada que esteja, ou seja, não  deita para descansar, porque não consegue dormir sem limpar o que a sua mente doente considera menos limpo e sem cumprir os afazeres a que se propôs como necessários ao dia de trabalho doméstico. Limpam e arrumam constantemente numa ansiedade sem tréguas.

Segundo vários psicanalistas e após investigações profundas neste sentido, não é o exterior que está sujo, mas as profundezas da mente. Limpam afanosamente o exterior, porque na realidade desejam desesperadamente limpar o interior. Pessoas que têm a mania de constantemente pretender mudar o "visual", e pouco depois já não se sentem confortáveis e vão comprar roupas, mudar o penteado, transformar, quando a nível inconsciente há uma ansiosa e premente reclamação duma mudança e transformação interior. Outras mudam os móveis da casa numa canseira de encontrar o equilíbrio e a estética que procuram; a mudança e a estética que inconscientemente reclamam é no Eu interior. Não se encontram, há uma desorientação profunda na atividade psíquica de que não têm consciência.

As manias podem, em casos limites, levar a certas formas de psicose que são designadas por maníaco-depressivos. Tanto as manias como as fobias são angustiantemente escravizantes.

Existe uma variedade enorme de fobias especificas diferentes. O Internet Mental Health3 propõe, como elemento facilitador, cinco subtipos onde todos podem ser encaixados:

          1. Tipo Animal (ex: zoofobia, aracnofobia, etc.)

          2. Tipo ambiente natural (ex: alturas, tempestades, água, etc.)

          3. Tipo sangue-Injecões-ferimentos

          4. Tipo situacional (ex: aviões, elevadores, lugares fechados, etc.)

          5. Outros tipos (ex: engasgamento, vômito, doenças, ruídos altos, etc)

 

Existe um glossário de fobias muito útil no seguinte endereço:
http://www.psicologia.org.br/internacional/gloss.htm



Epidemiologia

Dados do National Institute of Mental Health indicam que as fobias constituem a doença psiquiátrica mais comum entre as mulheres americanas de todas as idades, sendo a segunda doença mais comum entre homens acima de 25 anos. A incidência geral é de 5,1% a 12,5%.



Evolução

         O DSM-IV descreve o seguinte curso clínico para as fobias especificas: 

A idade média de início varia de acordo com o tipo de Fobia Específica. A idade de início para a Fobia Específica, Tipo Situacional, tende a uma distribuição bimodal, com um pico na infância e um segundo pico na metade da casa dos 20 anos. As Fobias Específicas, Tipo Ambiente Natural (ex. fobia de alturas), tendem principalmente a começar na infância, embora muitos novos casos de fobia de alturas desenvolvam-se no início da idade adulta. As idades de início para Fobias Específicas, Tipo Animal, e Fobias Específicas, Tipo Sangue-Injeção-Ferimentos, também se situam geralmente na infância. Os fatores predisponentes para o início de Fobias Específicas incluem eventos traumáticos (tais como ser atacado por um animal ou ficar preso em um armário).

Ataques de Pânico inesperados na situação futuramente temida, observação de outros sofrendo traumas ou demonstrando temor (tal como observar outros caindo de alturas ou demonstrando medo frente a animais) e transmissão de informações (ex. alertas parentais repetidos sobre os perigos de certos animais ou cobertura de acidentes aéreos pelos meios de comunicação).

Os objetos ou situações temidos tendem a envolver coisas que realmente podem representar uma ameaça ou ter representado uma ameaça em algum momento no curso da evolução humana. As fobias resultantes de eventos traumáticos ou de Ataques de Pânico inesperados tendem a um desenvolvimento particularmente agudo. As fobias de origem traumática não têm uma idade característica de início (ex. o medo de sufocar, que geralmente se segue a um incidente de asfixia ou quase-asfixia, pode desenvolver-se em quase qualquer idade). As fobias que persistem na idade adulta raramente apresentam remissão (em torno de 20% dos casos).

Esses dados foram ampliados mais recentemente pelos estudos de Tocharoen et al (2000)4, num estudo longitudinal de doenças fóbicas à medida que jovens evoluem até a adolescência tardia. Foram definidos três níveis de fobias: clinica, subsindrômica e subliminar, com prevalências de 0.40%, 1.34% e 5.74% respectivamente, mostrando que a forma subliminar era a mais comum. Esses dados combinam com a incidência geral que foi de 0.28% para a forma clínica, 0.19% para a forma subsindrômica e 4.63% para a forma subliminar. Os dados para a adolescência tardia revelaram uma forte tendência para remissão de sintomas fóbicos.

O tipo mais comum de fobia a específica, com a sugestão de que esse tipo começa mais cedo, tem uma prevalência maior e são mais freqüentes com a passagem do tempo do que a fobia social e agorafobia.

Maes et al (2000)5 examinaram a comorbidade e fatores de risco em relação a TEPT depois de eventos traumáticos, como incêndio e acidentes de trânsito, com coleta de dados 7-9 meses depois do evento traumático. A ocorrência de fobias específicas foi baixa, em torno de 2%, juntamente com transtorno do pânico e transtorno obsessivo-compulsivo

As comorbidades mais comuns que ocorrem com TEPT causadas por incêndio e acidentes de trânsito foram transtorno depressivo maior (26.2%), transtorno de ansiedade generalizada (24.6%) e agorafobia (21%). Esses dados confirmam que fobias específicas são mais comuns depois de traumas específicos.



Fisiopatologia

Rauch et al (1997)6 estudaram o fluxo regional cerebral (rCBF) em 23 pacientes apresentando transtorno obsessivo-compulsivo, fobia específica ou transtorno de estresse pos-traumático. Foi encontrada uma ativação do fluxo sanguíneo em córtex (região frontal inferior direita, região órbito-frontal póstero-medial direita, região insular bilateral e núcleo lenticular bilateral) e tronco cerebral em comparação a um grupo controle. O paciente com alteração do rCBF em tronco cerebral apresentava elevado grau de ansiedade. Esse estudo indica que o aumento do rCBF foi comum a essas três modalidades de ansiedade.

Apesar de que estudos neuroanatômicos mostram que áreas cerebrais podem ser comuns a vários tipos de ansiedade, o padrão de resposta simpática pode revelar alguma especificidade. Uma ativação emocional aguda, irrespectivo do estado emocional, aumenta a atividade simpática.

No entanto, a magnitude da resposta depende de fatores constitucionais e hereditários, algumas pessoas sendo mais sensíveis ao stress do que outras, podendo apresentar respostas mais intensas de indivíduo para indivíduo, com estímulos menores. Além da resposta ser mais ou menos intensa, a consciência subjetiva também pode variar de uma pessoa para outra, estando o paciente mais focado em um determinado sistema, como o cardiovascular ou gastrintestinal. Nessas situações, o estado fisiológico tem um papel importante, como é o caso da ansiedade.

Pessoas não ansiosas têm a tendência de mostrar respostas simpáticas mais flexíveis, isto é, podem apresentar respostas extremamente fortes para estressores, mas retornam a níveis autonômicos basais com mais facilidade, habituando-se melhor do que as pessoas ansiosas. Dessa forma, algumas pessoas ansiosas mostram um estado de ativação simpática maior em estado basal, quando o estressor é fraco ou ausente. Hoehn-Saric et al (1988)7 mostraram que durante períodos de repouso, pacientes com fobia social e transtorno do pânico tendem a ter ativação simpática, ao contrário do que se vê na fobia específica. Além do mais, existe um padrão diferenciado de resposta muscular e autonômica para diferentes tipos de ansiedade: pacientes com transtorno da ansiedade generalizada e transtorno obsessivo-compulsivo mostram aumento da tensão muscular sem ativação simpática, mostrando algum tipo de inibição da resposta autonômica para a fobia simples, transtorno da ansiedade generalizada e transtorno obsessivo-compulsivo.



Tratamento

Como já foram mencionadas acima, as fobias específicas que iniciam na infância possuem um alto grau de remissão espontânea, exceto aquelas com início traumático ou aquelas associadas com ataques de pânico. As fobias com início na idade adulta possuem um prognóstico pior, com apenas 20% de remissão espontânea.

O tratamento das fobias específicas envolve:

     · Tratamento por exposição;

     · Dessensibilização;

     · Medicação.
 


Exposição e Dessensibilização Progressiva

A maior parte dos estudos sobre o tratamento das fobias específicas mostra que o tratamento por exposição, elaborada por Foa e Kozak, em 1986, traz os melhores resultados. Esta forma de tratamento também se mostrou eficaz para outras formas de ansiedade, como transtorno obsessivo-compulsivo. Nessa abordagem, o paciente é exposto ao estímulo fóbico. Esta técnica está baseada num preceito behaviorístico clássico de que a fobia é um reflexo condicionado, adquirido para estímulos não perigosos (isto não está de acordo com as fobias adquiridas por traumas verdadeiros como, por exemplo, ter sido mesmo mordido por um cachorro).  Nos casos, porém, onde não houve um início traumático, que é mais comum, o medo que se teria para cobra venenosas por exemplo, seria generalizado para cobra não venenosa. Se, então um paciente com herpetofobia for exposto repetidas vezes a cobra não venenosa, a fobia eventualmente se dissipará. Nos casos onde a exposição real ao estimulo fóbico é difícil ou impossível, a criação de imagens mentais ou até vídeos e mais modernamente, através da realidade virtual, introduzida por Rothbaum em 1995, podem ser usadas. Uma variante mais drástica seria através da técnica de “flooding”, ou avassalamento, onde um estímulo fóbico é apresentado de uma só vez e de maneira persistente, até que a fobia dissipe.

Uma outra forma ainda seria através do contra-condicionamento, elaborada por Watson, em 1924, onde uma resposta fóbica é substituída por relaxamento, através da sugestão e técnicas respiratórias.

Wolpe, em 1956, ampliou esse conceito, fazendo um contra-condicionamento progressivo chamado de dessensibilização sistemática, que envolve 3 etapas básicas: (1) treinando o paciente a relaxar-se fisicamente, (2) estabelecendo uma hierarquia de ansiedade em relação ao estímulo fóbico e (3) contra-condicionando o relaxamento como uma resposta ao estímulo temido, iniciando com o elemento mais baixo na hierarquia de ansiedade até se chegar ao ponto mais alto dessa hierarquia previamente estabelecida em (2).



Medicamentos

Não existe, até o momento, uma linha de farmacoterapia específica para fobias específicas, apesar de haverem relatos ainda não comprovados com inibidores de recaptação da serotonina como a Paroxetina, que podem ajudar em alguns casos. Na maior parte das vezes, a estratégia farmacoterapêutica mais útil tem sido o uso dos benzodiazepínicos, principalmente aqueles de curta ação, como o alprazolam e clonazepam, que podem ter valor para diminuir a ansiedade antecipatória em pessoas com fobias específicas.



Resumo

Uma reação normal perante um estressor seria o medo acompanhado pela ansiedade, enquanto o medo acompanhado por ansiedade patológica e angústia constituem uma reação fóbica. Quando a reação fóbica dirige-se a um único estressor como alturas, aranhas, animais, etc, é chamada de fobia especifica.

Existe uma variedade enorme de fobias especificas diferentes. O Internet Mental Health3 propõe, como elemento facilitador, cinco subtipos onde todos podem ser encaixados:

          1. Tipo Animal (ex: zoofobia, aracnofobia, etc.)

          2. Tipo ambiente natural (ex: alturas, tempestades, água, etc.)

          3. Tipo sangue-injeções-Ferimentos

          4. Tipo situacional (ex: aviões, elevadores, lugares fechados, etc.)

          5. Outros tipos (ex: engasgamento, vômito, doenças, ruídos altos, etc)

 

O DSM-V2 estabelece os seguintes critérios para a fobia especifica:

· O medo acentuado e persistente de objetos ou situações claramente discerníveis e circunscritos

· A exposição ao estímulo fóbico provoca, quase que invariavelmente, imediata resposta de ansiedade

· Esta resposta pode assumir a forma de um Ataque de Pânico, ligado ou predisposto  pela situação

· Com maior freqüência, o estímulo fóbico é evitado, embora às vezes seja suportado com pavor

· O diagnóstico é apropriado apenas se a esquiva, o medo ou a antecipação ansiosa do encontro com o estímulo fóbico interferem significativamente na rotina diária, funcionamento ocupacional ou vida social do indivíduo, ou se ele sofre acentuadamente por ter a fobia

· Em indivíduos com menos de 18 anos, os sintomas devem ter persistido por pelo menos 6 meses antes de a Fobia Específica ser diagnosticada

· Ansiedade, Ataques de Pânico ou esquiva fóbica não são melhor explicados por um outro transtorno mental (ex.Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtorno de Ansiedade de Separação, Fobia Social, Transtorno de Pânico com Agorafobia ou Agorafobia sem História de Transtorno de Pânico)

 

A idade média de início varia de acordo com o tipo de Fobia Específica, a maior parte tendo início na infância. Em indivíduos com menos de 18 anos, os sintomas devem ter persistido por pelo menos 6 meses antes de a Fobia Específica ser diagnosticada.

As fobias resultantes de eventos traumáticos ou de Ataques de Pânico inesperados tendem a um desenvolvimento particularmente agudo. As fobias de origem traumática não têm uma idade característica de início. As fobias que persistem na idade adulta raramente apresentam remissão (em torno de 20% dos casos).

O aumento do rCBF foi observado no transtorno obsessivo-compulsivo, fobia específica ou transtorno de estresse pos-traumático. Foi encontrada uma ativação do fluxo sanguíneo em córtex (região frontal inferior direita, região órbito-frontal póstero-medial direita, região insular bilateral e núcleo lenticular bilateral) e tronco cerebral.

      Apesar de que estudos neuroanatômicos mostram que áreas cerebrais podem ser comuns a vários tipos de ansiedade, o padrão de resposta simpática pode revelar alguma especificidade.  

 

Bibliografia

1-  Luiz Salvador Miranda-Sá Jr. Compêndio de Psicopatologia e Semiologia Psiquiátrica, Pg.219. Artmed  Editora Ltda , 2001.

2-  DSM-IV http://www.psiqweb.med.br/dsm/dsm.html

3-  Internet Mental Health  http://www.mentalhealth.com/

4-  Tocharoen A, Garrison C, McKeown R, Waller J, Jackson K, Addy C, Shoob H. The longitudinal study of phobic disorder in a community sample from early to late adoslescence. Ann Epidemiol, 2000, Oct 1; 10 (7):483.

5-  Maes M, Mylle J, Delmeire L, Altamura C. Psychiatric morbidity and comorbidity following accidental man-made traqumatic events: incidence and risk factors. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci, 2000; 250 (3):156-62.

6-  Rauch SL, Savage CR, Alpert NM, Fishman AJ, Jenike MA. The functional Neuroanatomy of anxiety: a study of three disorders using positron emission tomography and symptom provocation. Biol Psychiatry, 1997 Sep 15; 42 (6):446-52.

7-  Hoehn-Saric R, McLeod DR. The peripheral sympathetic nervous system. Its role in normal and patholgic anxiety. Psychiatr Clin North Am, 1988, Jun; 11 (2): 375-86.