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Sexualidade e Adolescência: Educação ou Repressão? |
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por Heloísa Helena Daldin Pereira
- Psicóloga - CRP 08/1312 * |
helopereira.orgone@gmail.com
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Foi
a partir do século XVIII, que o adolescente passou a ocupar um
papel de destaque na vida social humana, como coloca ARIÈS
(1981), a juventude era identificada como um período de
características próprias com relação ao corpo, ao crescimento,
ao desenvolvimento e a certos comportamentos e funções em
relação à sociedade. As idades da vida não equivaliam apenas às
etapas biológicas, mas a funções sociais. Juventude significava
força da idade e sua idéia estava relacionada com independência.
Tornar-se independente decidia o final da infância. Ainda hoje,
a sociedade espera do adolescente, desenvolvimento e
indepen
dência emocional, simultaneamente a capacitações na
interação de preceitos éticos, competência intelectual e um
sentido de responsabilidade social e pessoal. Não suficiente
tudo isso, o adolescente precisa confrontar-se com uma variedade
de questões relacionadas à sexualidade, como lidar com sensações
sexuais novas ou mais poderosas, participar de vários tipos de
comportamentos sexuais, conhecer o amor, evitar a gravidez
indesejada e as doenças sexualmente transmissíveis e ainda
definir papéis sexuais apropriados à sua idade.
Na
sociedade atual, uma das principais características é a
exigência de que o cidadão exercite sua capacidade de escolha
entre as opções possíveis para resolver um problema. Essa
capacidade ocorre cada vez mais cedo entre os jovens, na
formação de sua personalidade. Para TEDESCO (2002), adiantou-se
significativamente o momento de escolher aspectos que pertencem
ao âmbito da vida privada: a sexualidade, as roupas, a escolha
de atividades (esportes, lazer, etc). Os jovens de hoje são
convocados a escolher, a tomar decisões que até há pouco tempo
eram definidas por autoridades externas ao indivíduo como o
Estado, a família, a Igreja, e até mesmo a empresa.
A
revolução de costumes iniciadas na década de 1960, o sexo
utilizado como veículo publicitário pela comunicação de massa, a
tendência de casar cada vez mais tarde, estimulando o sexo
pré-conjugal e um amadurecimento sexual cada vez precoce, são
fatores que contribuíram para as mudanças no comportamento dos
jovens.
A
distinção entre a infância e vida adulta apoiava-se na
existência de âmbitos desconhecidos de segredos e, mais
simplesmente da idéia de “vergonha”. Os segredos da vida sexual,
do dinheiro, da violência, da morte e das doenças eram mantidos
e iam sendo revelados de forma progressiva, à medida que a
criança estava em condições de ter acesso a seu conhecimento.(Tedesco,
2002).
O
acesso a informação, através dos meios de comunicação cada vez
mais disponíveis acarretam a perda do segredo, ultrapassam a
barreira dos tabus, deixando expostas a sexualidade, a violência
e a capacidade dos adultos para dirigir o mundo. O advento da
televisão suprimiu a barreira entre a leitura e a informação,
abrindo a todos, crianças e adultos o acesso a todas as
informações indiferentemente, chegando muitas vezes a revelar
aspectos da vida adulta sem respeitar idades nem sensibilidades.
Também as mudanças na composição e no funcionamento da família
influenciam no processo de socialização. Na família moderna,
cujo maior fenômeno foi a inclusão da mulher no mercado de
trabalho, conseqüentemente a redução do número de filhos, o
aumento das separações, pais sozinhos vivendo com seus filhos,
ou ainda a chamada família agregada, composta por pares que
trazem filhos de relações passadas, há uma tendência de que haja
uma diminuição do tempo real que uma criança passa com os pais,
e esse tempo acaba ocupado pelo ingresso prematuro em
instituições como escola, creches, clubes, etc, ou pela
exposição aos meios de comunicação, em especial a televisão, sem
a ajuda de um adulto para interpretá-la.
Uma das dificuldades existentes era e ainda hoje é o
discernimento dos pais entre a liberdade e a permissividade,
levando a criança a desenvolver-se de maneira insegura quanto às
suas reais necessidades de afeto, território e pertinência no
sistema familiar e social. Esse fator faz com que a família
acabe por requerer da escola a extensão de seu papel educador e
esta, por sua vez, torna-se o contexto central do
desenvolvimento individual, das funções sociais e emocionais das
crianças e jovens.
Apesar da já citada crise da família, é no neste núcleo que a
criança se dá conta da sua dimensão sexuada. De alguma forma,
recebe dos pais uma visão do mundo e introjeta um sistema de
valores que irá ser confrontado no processo de socialização.
Portanto, quando chega à escola já traz uma série de
informações, valores e preconceitos
aprendidos na família. Esta, por sua vez, esperando que o núcleo
básico de socialização já esteja dado pela família, depara-se
com o fato de que este é insuficiente, constatando que, como a
família já não cumpre plenamente seu papel socializador, cabe a
ela novas demandas para as quais ainda não está preparada.
Dessa maneira, torna-se impossível ignorar a importância de
colocar a sexualidade em debate na escola e na família
tratando-a como parte fundamental da dimensão humana. A educação
sexual não está isolada do contexto, estrutura e momento
histórico que a criança vive. Corresponde à educação de como o
indivíduo deve viver a vida, pois é também a educação de seu
movimento emocional e energético. Procurar inibir atividade
sexual e gerar culpa é uma das formas universais de controle. A
inibição da atividade espontânea, em virtude da repressão do
movimento emocional sexual empobrece, gera medo e aumenta a
dependência.
Segundo ALBERTINI (1994) Reich, no artigo “Os pais como
educadores: a compulsão para educar e suas causas” faz uma forte
crítica ao papel do educador analisando suas motivações
inconscientes, capazes de implicar numa prática educativa
repressora, denunciando toda e qualquer frustração desnecessária
que ocorra no processo educativo. Para tanto, pais e educadores
não devem julgar a sexualidade vivida pelo jovem, antes de tudo
devem repensar sua própria sexualidade e estar cientes de que
muitas vezes podem servir como identificação do modelo de
“homem” ou “mulher”, portanto devem assumir diante do jovem uma
postura sem medo, preconceito ou tabu em relação às questões
sexuais.
Reich propôs que às crianças deveria ser dada a oportunidade de
satisfazer todos os seus impulsos naturais; assim não se
tornariam reprimidos e neuróticos. Em seu livro "Crianças do
Futuro" (1987), propõe treinamento de pais e educadores, para
levá-los a atingir o 'bom estado emocional do educador",
pré-requisito fundamental para um contato sensível e sintonizado
com a criança. O destino da raça humana dependerá das estruturas
de caráter das "Crianças do Futuro". Em suas mãos e em seus
corações repousarão as grandes decisões. Elas terão que colocar
em ordem a confusão deste século XX. Nós não podemos dizer às
nossas crianças o tipo de mundo que elas devem construir. Mas
podemos equipá-las com o tipo de estrutura de caráter e vigor
biológico que as tornaria capacitadas a tomar suas próprias
decisões, encontrar seus próprios caminhos, construir seu
próprio futuro e o de suas crianças de modo racional.
No
livro "O Combate Sexual da Juventude" (1975), espécie de manual
educativo, Reich queria trazer aos jovens, sob uma forma clara e
precisa, informações sobre um assunto que o afetado pudor
burguês recobre sempre com um espesso véu: o papel da
sexualidade, da sua repressão, da sua utilização na sociedade
capitalista. Constata-se nos últimos escritos reichianos a
presença de duas posturas básicas, uma delas a tomada de
consciência das enormes dificuldades existentes, pois em última
análise a boa educação depende do grau de saúde do educador e a
outra na direção da infindável confiança no potencial de vida da
criança.(Albertini, 1994, p.77)
Reich acreditava que as crianças seriam capazes de transformar
e revolucionar o mundo, desde que a alienação da sociedade e
suas contradições pudessem ser contidas.
Hoje ninguém sabe como um ser humano se desenvolveria se não
encontrasse obstáculos em seu livre desenvolvimento. As idéias
de Reich sobre educação demonstram que quanto mais livremente
vive um ser humano, tanto maior é sua capacidade de apreender a
realidade e utilizá-la de maneira eficaz, de mobilizar as
emoções necessárias para um comportamento adequado e racional de
ação e reação, e de ter uma relação empática com os próprios
semelhantes com a natureza e com o universo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBERTINI, Paulo. Reich. História das Idéias e Formulações
para a Educação. São
Paulo: Agora,1994.
ARIÈS, Phillipe. História social da criança e da família.
Rio de Janeiro: Zahar Editores.
REICH, Wilhelm. Análise do Caráter. São Paulo: Martins
Fontes, 1989.
________ O Combate Sexual da Juventude.
1. ed. Porto: Textos Marginais, 1975.
_________ Bambini del Futuro. Milão: Sugar Co, 1987.
TEDESCO, Juan Carlos. O novo pacto educativo. São Paulo:
Ed. Ática, 2002.
* Psicoterapeuta Corporal,
membro do IIBiossíntese, diretora clínica da Orgone
Psicologia Clínica/Curitiba,
mestre em Educação pelo PPG/UTP/PR.
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