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Introdução
Talvez você já
tenha vivido um estado de ansiedade agudo e extremo que é um
verdadeiro fenômeno da natureza: uma onda de medo intenso lhe
invade, com a força de um tsunami, tirando seu ar e acelerando o
coração, largando-o a mercê do turbilhão de um estado de pânico
absoluto, girando numa espiral ascendente, parecendo que não vai
parar nunca. Tremores tomam conta dos seus músculos e uma sudorese
intensa surge, juntamente com uma sensação de enforcamento na
garganta. O medo é tão forte que beira a insanidade. Um peso
invisível, mas nem por isso menos implacável, oprime seu peito,
imitando um infarto, o que aumenta mais ainda o seu pavor. Uma
onda de náusea aparece, às vezes, acompanhada de cólicas e
diarréia. Sua pele começa a participar dessa vivência com
sensações de formigamento, ondas de calor e calafrios. Vertigens e
uma leveza na cabeça completam o quadro, deixando você confuso e
desorientado. A essa altura, você tem quase certeza de que vai
morrer ou enlouquecer. Nesse momento, a única coisa que você quer
é fugir disso tudo.
Na maior parte das vezes, uma
crise de pânico chega ao seu auge em 10 a 15 minutos
desaparecendo, em regra, 30 minutos depois. Ocasionalmente surge
de uma situação como depois de um acidente ou de um assalto,
muitas vezes acompanhando uma discussão. Outras vezes cai como um
raio, vindo aparentemente do nada.
Uma crise de pânico se
diferencia de uma crise de ansiedade aguda pela sua intensidade e
maneira abrupta de surgir: 10% das pessoas normais podem
experimentar uma ou mais crises de pânico isoladas em sua vida e
não serem consideradas doentes. No entanto, quando aparecem
regularmente, no mínimo duas crises inesperadas pelo menos no mês,
ou mais freqüentemente, seguindo uma ritmicidade que pode variar
desde crises semanais até surtos repetidos, seguidos de remissões,
acompanhado por comportamentos esquivos estruturados em torno do
medo de ter outra crise. Assim como uma preocupação a respeito das
conseqüências e implicações das crises, entra-se num estado
patológico, podendo ser chamado de
transtorno do pânico.
Não se aplica esse diagnóstico quando essas crises estão
associadas a medicamentos ou drogas ou quando se trata de um
distúrbio clínico como hipertireoidismo.
Por outro lado, ataques de
pânico não ocorrem exclusivamente no transtorno do pânico. Às
vezes, ocorrem de maneira comórbida com outros distúrbios da
ansiedade, como no transtorno de ansiedade generalizada (25% de
comorbidade), fobias especificas (20% de comorbidade) e transtorno
obssessivo-compulsivo (10% de comorbidade). Também pode aparecer
durante o decurso de um transtorno depressivo maior (50% ou 65% de
comorbidade), como juntamente com alcoolismo (20% a 30% de
comorbidade). Aproximadamente metade daqueles incluídos no
transtorno do pânico desenvolvem conjuntamente uma preocupação e
comportamentos esquivos intensos o suficiente para descrever-se o
quadro como um transtorno do
pânico com agorafobia (90% das pessoas com agorafobia
já tiveram pelo menos uma crise de pânico).
O transtorno do pânico é duas
vezes mais comum nas mulheres do que nos homens. Demonstra uma
prevalência que gira em torno de 1.6 a 2.2%. É mais comum um
início na adolescência tardia e fase adulta jovem, sendo muito
incomum iniciar depois dos 50 anos. Quanto mais cedo se inicia a
doença, maior será o impedimento e grau de comorbidade e
cronicidade.
Diagnóstico
Fundamentais ao diagnóstico do transtorno do
pânico são os ataques de pânico. Esses ataques consistem de
períodos discretos de medo intenso ou desconforto no qual pelo
menos quatro dos sintomas abaixo relacionados desenvolvem-se
abruptamente e
alcançam um auge em aproximadamente 10 minutos:
-
Dispnéia (ou sensação de
sufocamento)
-
Tonturas, sensação de
instabilidade ou iminência de desmaio
-
Palpitações e taquicardia
-
Tremores
-
Sudorese
-
Aperto na garganta
-
Náusea
-
Despersonalização e/ou
desrealização
-
Parestesias
-
Fogachos e calafrios
-
Dor precordial
-
Medo de morrer
-
Medo da insanidade ou perda
do controle
Para que se satisfaçam os
critérios para o transtorno do pânico, pelo menos alguns dos
ataques devem ter ocorrido de maneira espontânea, sem fatores
ambientais precipitantes, como: elevadores, falar em
público, cobras, lugares fechados ou outras situações igualmente
estressantes. Além do mais, é necessário que os ataques ocorram em
conjuntos de pelo menos quatro ataques num período de quatro
semanas ou um ou mais ataques, seguidos de pelo menos um mês de
antecipação amedrontada de mais ataques como esses.
Existem dois sub-tipos para o
transtorno do pânico: transtorno do pânico com agorafobia e
transtorno do pânico sem agorafobia. No primeiro tipo, existe
comportamento esquivo para situações ou lugares dos quais a fuga
pode ser difícil ou embaraçosa, nos quais a ajuda pode não estar
disponível. O grau de esquivo pode ser leve, moderado ou intenso a
ponto da pessoa não mais sair de casa ou se tornar disfuncional de
maneira correspondente.
Diagnóstico
Diferencial
Existem vários transtornos onde
podem ocorrer ataques de pânico. Os mais comuns são:
-
Fobias simples, nos quais o
ataque ocorre antes ou logo após a situação temida.
-
Fobias sociais que ocorrem
quando o paciente se sente o foco das atenções.
-
Claustrofobia
-
Depressão severa
-
Transtornos dissociativos
-
Transtorno da ansiedade
generalizada sem pânico
-
Abstinência de álcool ou
drogas
-
Abuso de substancias
(cafeína, cocaína, anfetaminas)
-
Arritmias cardíacas, doença
das glândulas supra-renais, doenças do aparelho vestibular,
hipertireoidismo e crises convulsivas.
Comorbidade
Certas condições podem existir de maneira comórbida
com o transtorno do pânico:
Neurofarmacologia
O transtorno do pânico está associado a desarranjos
com a serotonina, norepinefrina, ácido gamma-amino butírico,
dopamina e colecistoquinina (Johnson et al 1995).1
Schneider et al (1987)6 demonstraram que não haviam
muitas diferenças entre dopamina, norepinefrina e adrenalina entre
grupos com transtorno do pânico, mas que o 5-HT estava mais baixo
no grupo com agorafobia. Yoo et al (2005)7 levantaram
suspeitas de alterações em genes polimórficos 5’UTR em transtorno
do pânico.
Tratamento
Os objetivos do tratamento do transtorno do pânico
podem ser divididos em duas categorias: especificos, que
visam prevenir ataques, reduzir sua intensidade e eliminar o
comportamento esquivo e gerais, que visam restaurar a
qualidade de vida, prevenir recaídas e complicações. O objetivo
inicial é prevenir mais crises, o que se consegue através da
farmacoterapia e psicoterapia. Deve-se começar com uma dose baixa,
pois muitos pacientes podem experimentar exacerbação de seus
sintomas
se a dose for alta demais.
O tratamento
farmacológico deve continuar por pelo menos 12 meses depois da
remissão, para evitar recaídas. Uma média de 72% dos pacientes
terá uma recaída antes disso, irrespectivo se tomaram
antidepressivos ou benzodiazepínicos, apesar de que apenas 1/3
recairá logo depois de cessar a medicação. No entanto, o
transtorno de pânico revela uma boa possibilidade de melhora em
longo prazo, até 11 anos depois do início da doença. Swoboda et al
(2003)2, mostraram um índice de remissão de até 67%
nesse período, sugerindo que o transtorno de pânico não é uma
enfermidade uniformemente crônica e progressiva. Cowley
et al (1997)3, definiram, 70% tinham pelo menos dois
diagnósticos de Eixo I e 40% mostraram uma comorbidade em Eixo II.
A razão mais comum para a falha do tratamento foi devido a efeitos
colaterais intoleráveis (52%).
Outros fatores
indicativos de um curso menos favorável incluíram sintomas
iniciais mais severos, história de depressão, alta sensibilidade
interpessoal e baixa classe social.
Monoterapia
Com relação ao tipo de medicamento usado, Bakker
(2002)4, comparando antidepressivos tricíclicos e ISRS,
mostrou que 60% dos que usaram ISRS e 55% dos que usaram
tricíclicos estavam livres de sintomas, indicando resultados
similares (se bem que o grupo dos tricíclicos mostrou uma
desistência de tratamento de 31%), ao passo que o grupo dos ISRS
desistiu em apenas 18%, por causa dos efeitos colaterais dos ADT.
Outros autores também confirmaram que os ISRS são os mais
eficazes como agentes antipânico e antifóbicos.
Estudos com venlafaxina e reboxetina mostraram
eficácia, ao passo que trazodona e bupropiona não mostram
resultados tão bons.
A monoterapia com benzodiazepínicos mostraram os
seguintes resultados:
- Os benzodiazepínicos são eficazes contra crises de
pânico, principalmente por seu mecanismo de ação
rápido. Essa
eficácia cai depois de quatro semanas
- Por causa do risco de dependência, os benzodiazepínicos estão contra-indicados nos pacientes com
transtorno de dependência
Estudos
com ADT mostraram os seguintes resultados:
- Imipramina e clomipramina são eficazes como agentes
antipânico
- Nortriptilina, desipramina e amitriptilina não
foram suficientemente estudados.
- A presença de distúrbios de humor não era
necessário para o efeito antipânico
- Efeitos colaterais cardiovasculares e anticolinérgicos atrapalharam o tratamento, especialmente nos mais
idosos e naqueles com doenças cardiovasculares.
Farmacoterapia combinada
ISRS com benzodiazepínicos
Goddard et al (2001)5, estudaram a
combinação de sertralina com clonazepan num estudo duplo cego com
placebo, num período de quatro semanas.Demonstraram bons
resultados no primeiro mês, com queda desses resultados depois
desse período, mostrando que a monoterapia com esse ISRS era mais
eficaz depois desse período
inicial.
Pollack et al (2003) mostraram resultados
similares com o uso da sertralina. Ambos demonstram que uma dose
inicial baixa de ISRS, com aumento progressivo da dose, era mais
eficaz.
Resumo
Ataques de pânico são eventos episódicos que
envolvem sintomas mentais, motores, emocionais e autonômicos,
ocorrendo com ou sem fatores precipitantes. Podem aparecer como
fenômenos isolados, associados a diversas entidades psiquiátricas
e clinicas ou fazendo parte de um transtorno psiquiátrico
definido, denominado transtorno do pânico, quando as crises
aparecem dentro de um determinado padrão temporal.
O transtorno do pânico pode ser dividido num
subgrupo
com sinais de esquivo, denominado transtorno do
pânico com agorafobia ou transtorno do pânico sem agorafobia,
quando o comportamento esquivo está ausente.
É duas vezes mais comum nas mulheres do que nos
homens, com uma prevalência entre 1.6 a 2.2%, sendo mais comum um
início na adolescência tardia e fase adulta jovem, sendo muito
incomum um início depois dos 50 anos.
Quanto mais cedo se inicia a doença, maior será
o impedimento e grau de comorbidade e cronicidade.
A neurofarmacologia ainda é incerta, mas
provavelmente envolve uma combinação de alterações de aminas
ligado a alterações polimórficas genéticas. Talvez existam
diferenças neurofarmacológicas entre aqueles com e sem agorafobia.
O tratamento mais adequado parece estar ligado a uma associação
entre sertralina e benzodiazepínicos.
Bibliografia
1-
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Lydiard RB, Ballenger JC (1995). Panic Disorder: pathophysiology
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2- Swoboda H,
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3- Cowley
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treatment failure in panic disorder. J Clin Psychiatry
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4- Bakker A,
van Balkom AJLM, Spinhoven P et al (2002). SSRIs vs TCAs in the
treatment of panic disorder: a meta-analysis. Acta Psichiatr
Scand 106:163-7
5- Goddard AW,
Brouette T, Almai A et al (2001). Early cxoadministration of
cloanazepam with sertraline for panic disorder. Arch Gen
Psychiatry 58:681-6
6-
Schneider P,
Evans L, Ross-Lee L, Wiltshire B, Eadie M, Kenardy J, Hoey H,
Pharmacopsychiatry. 1987 May; 20 (3):102-5
7-
Yoo et al.
Neuroscience lettrers volume 377, issue 1 22 march 2005 pages
40-43
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